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sexta-feira, 11 de abril de 2014

Lollapalooza Brasil 2014: um domingo bonito e escaldante em Interlagos - Parte 2





Para ler a primeira parte, clique aqui.



Ao fim do texto do link acima, êxtase por ver metade dos Smiths no palco, mesmo que por uma música, e agora um tempinho até a próxima atração no mesmo palco, o Vampire Weekend. Duas opções: a loirinha Ellie Goulding ou o quarteto de pós-punk feminino Savages.




O "normal" seria escolher o Savages, mas o palco mais próximo era onde estava a inglesa Ellie, responsável por vários hits que eu e, talvez vocês, nunca tenhamos ouvido na vida. Essa foi a impressão a cada comoção gerada pela introdução de algumas músicas pelo numeroso grupo de fãs que, se não lotavam o espaço, pelo menos se faziam notar de forma sonora.




Havia também bastante barulho quando o telão mostrava o corpo da moça, vestindo uma camisa da seleção brasileira e um shortinho preto bem curto. O show até foi uma surpresa positiva e a impressão que deu é que Ellie Goulding poderia ser uma Spice Girl. E isso não é uma crítica.







Não é das melhores cantoras, não tem as melhores músicas, mas é esforçada, volta e meia ataca um kit de percussão e cativou quem não esperava muito dela. E "I Need Your Love" desmonta aquela tese mais acima de hits-que-talvez-você-não-conheça, pois essa até este ~eremita dos sucessos~ conhece. Mas logo o Vampire Weekend ia começar no outro palco.




Tanto o show no Circo Voador feito em 2011, quanto os três discos lançados, mostram uma banda com uma inconstância de qualidade, cheia de altos e baixos, muito embora eles já imprimam uma identidade sonora desde o começo, trazendo para um universo "pop-indie-século-XXI" músicas com influências daquelas reprocessadas por Paul Simon, Peter Gabriel e David Byrne nos anos 80.




Tudo muito estudado e interessante, mas que nem sempre funciona. É o ônus de quem se arrisca, apesar dos vocais de Ezra Koenig e os timbres de guitarras e teclados serem marcas capazes de tornar uma música do Vampire Weekend reconhecível em poucos segundos.



Vale para os discos, vale para o show, também todo estudado e ajeitadinho, a ponto das músicas dos três discos serem distribuídas dentro do setlist de forma quase equânime, com levíssima vantagem para o álbum mais recente. E ainda teve o momento populista de Ezra, chamando São Paulo de "a melhor cidade da América do Sul" (teremos influências de Caetano Veloso no próximo álbum?) e mandando um "tamo junto" que agradou bastante a plateia.







Os altos e baixos do show também são constantes, mas o lance é que as partes boas acabam tornando positiva a experiência de ver o Vampire Weekend, seja só por serem boas mesmo, seja por poder brincar com esse som que pega tanto de artistas pop imersos na world music dos anos 80 que acaba às vezes soando como nossa axé music. Não sendo uma pessoa muito carrancuda, é um show que pode ser bem divertido. De vez em quando.



(Ah, sim, e abrir rodinha de pogo com a #BlogosferaIndieSP durante "A-Punk" foi um dos grandes momentos particulares do festival. Valeu Mac, Bruno, Edu e quem mais tava por lá.)





"A-Punk", colocado no youtube por Thomas W.



O fim da agitada "A-Punk" e o começo da chatinha "Ya Hey" foi a senha para buscar um bom posicionamento no outro palco, onde o Pixies se apresentaria pela terceira vez no Brasil, a primeira sem a baixista Kim Deal. No seu lugar entra Paz Lenchantin, que já tocou em várias bandas e fez cosplay de Kim Deal direitinho.



De forma pontual, como foram todos os outros shows do Lollapalooza no domingo, Paz, o baterista David Lovering e o guitarrista Joey Santiago, liderados pelo vocalista e guitarrista Hank Schrad... ops, Frank Black, entraram no palco, colocaram seus instrumentos, tocaram e 23 músicas depois, tocadas ao longo de pouco mais de uma hora, foram embora sem dizer uma única palavra além daquelas contidas nas letras das músicas do grupo.







Era o que bastava. Essa "otimização" de tempo permite que ouçamos músicas o bastante para não termos que reclamar da ausência de uma ou outra de nossas preferidas. O grupo já começa com "Bone Machine". Algumas berrarias maravilhosas depois (tipo o hardcore de "Something Against You" e "Broken Face") colocam um cavalo de batalha como "Gouge Away" nas nossas fuças. Aí vem "Monkey Gone to Heaven". "Caribou". "Where Is My Mind?". "Here Comes Your Man". Como reclamar disso?


Deste jeito: cadê "Tame"? Cadê "Wave of Mutilation"? Cadê "I Bleed"? Cadê "Dig For Fire", "Is She Weird", "Velouria" ou qualquer uma do álbum Bossanova? E, principalmente, cadê "Debaser"?? "Gigantic" nem pensar, mas música cantada pela Kim a gente entende, infelizmente... Dez anos depois de terem se reunido, os Pixies resolveram voltar a ser uma banda "de verdade", gravando e lançando músicas novas, e pelo visto essas músicas acabaram "tirando" o espaço de algumas canções que os fãs mais entusiasmados da banda esperavam encontrar.







É ruim e é bom. Músicas como "Bagboy" e "Magdalena" funcionaram muito bem ao vivo. "Blue Eyed Hexe" chega quase lá. Já "Greens and Blues" não parece material do Pixies e "Indie Cindy", faixa que dará nome ao primeiro álbum da banda desde 1991, fica pelo meio do caminho.



Mas a gente perdoa todas as ausências no setlist e esquece todas essas avaliações quando o Chico grita: "Hey"!, que faz todo o público entrar em sintonia com a banda. Sintonia que não é alcançada com uma preferência particular que encerrou a apresentação, "Planet of Sound". Ao final, Frank Black continua sem dizer nenhuma palavra além daquelas que ele escreveu nas músicas, mas vai até cada uma das pontas do palco agradecer acenando demoradamente para os fãs. Os Pixies são estranhos e esse foi um show dos Pixies, estranho (e bom) como tem que ser.







Enquanto os Pixies se apresentavam, a noite chegou e a temperatura deu uma refrescada, com o auxílio do ventinho que chega e não sai de Interlagos. Já era possível botar sua camisa xadrez de flanela para assistir ao Soundgarden no palco mais distante.




O show já havia começado há alguns minutos (além da distância, a essa hora já havia mais dificuldade em passar no meio de tanta gente, algo que poderia ser resolvido com um maior número de acessos entre os palcos), mas a hora de ficar próximo do palco não poderia ser melhor, justamente quando começam a tocar "Outshined".




A partir daí, um rosário de hits é desfiado de forma implacável. Diferente do Vampire Weekend é uma banda com um repertório consistente. Diferente do Pixies, não esquece nenhum de seus sucessos, seja radiofônicos ou aquelas preferidas entre os fãs. Ok, faltou "Slaves and Bulldozers", mas o "índice de aproveitamento" impressionou.




Continuando o comparativo com o Pixies (um pouco sem sentido se levarmos em consideração a sonoridade, é verdade): as duas bandas retornaram depois de terminarem no século passado e estão lançando discos novos, fazendo música e não só mimetizando o passado.



Mas enquanto o Pixies traz, para o bem e para o mal, boa parte do material novo para o show, o vocalista Chris Cornell dá longa explanação antes de apresentar "Been Away Too Long", única música do disco lançado ano passado. Isso dá aquela impressão de revival saudosista do grunge, muito mais do que os telões em preto e branco do começo ao fim, por mais que no começo dos anos 90 Cornell não pudesse pedir que os fãs ouvissem o disco nem que fosse baixando ilegalmente, como fez no domingo.









Apesar disso, o espírito saudosista não estava lá tanto assim. Diferente do que se supôs, a temperatura mais amena da noite não fez tantas camisas de flanela aparecerem diante da última das grandes bandas dos anos grunge a aparecerem pela américa latina, no show mais cheio desse palco.



A sonoridade do Soundgarden ainda está longe de soar datada e, muito mais do que a (ainda) ótima voz de Chris, o que temos de mais importante neste show é: a guitarra de Kim Thayil. Ruidosa, grudenta, suja, envolvente, seguidor de Tony Iommi com riffs pegajosos, mas que na verdade dá continuidade à sonoridade sabbathiana, tão importante para tudo aquilo que foi feito em Seattle nos anos 80/90 e, no caso do Soundgarden, mais do que para qualquer outra das bandas de lá.



E que ganhou muito com o som desse palco, o melhor do domingo. Mas a banda toda tem um momento brilhante com o peso de "Jesus Christ Pose", onde o baixista Ben Shepherd e o baterista Matt Chamberlain são bem exigidos, e correspondem.




Antes do fim, e infelizmente deixando de ouvir os caras tocarem "Rusty Cage", era hora de assistir o último show da noite. Conforme dito na primeira parte deste texto sobre o Lollapalooza, optamos por deixar o Arcade Fire de lado e ir conferir o New Order, a despeito de todas as críticas a quase todos os shows que o grupo inglês já fez no Brasil, em sua quarta passagem pelo país.




Existem muitas possibilidades para o show do New Order ter sido tão elogiado, quase tanto quanto o incensado e colorido Arcade Fire. Uma delas pode ser a comparação com o que diziam de shows anteriores, ou até mesmo com vídeos de shows em festivais como o Coachella.




Outra é que de repente todo mundo já se deu conta que o vocalista Bernard Sumner é daquele jeito mesmo: desengonçado, comete gafes tipo bradar pelo time do Manchester United ou dizer diversas vezes "muchas gracias", mesmo depois dizendo "obrigado" e que adora caipirinhas, erra letra e consegue dançar mais esquisito que aquele seu tio meio bêbado no final da festa ao ouvir... New Order.



É mais anti-frontman do que o Frank Black dos Pixies, se pensar bem. Porque a música do New Order não é "esquisita" como a do Pixies, então é mais surpreendente (apesar de sabido) o jeito de anti-rockstars não só de Bernard Sumner, como da tecladista Gillian Gilbert, uma bonita senhora que está ficando cada vez mais parecida com o, er, Laerte (que também está ficando uma bonita senhora, não?). O único com um pouco mais de "banca" roqueira era o baixista Peter Hook, brigado com a banda (Tom Chapman está em seu lugar). O maridão de Gillian, Stephen Morris, rockstar ou não, 56 anos de idade, continua metendo bronca na bateria de forma incessante.




Talvez seja por isso que na segunda música, "Crystal", eles façam questão de colocar o clipe com uma fictícia banda de jovenzinhos fazendo uma performance encapetada. Ainda em compromisso com a juventude deles e, consequentemente, com o passado, a música a seguir já mostra que o fim do festival será de muita emoção, quando "Transmission", música do Joy Division (desnecessário dizer aqui qual a relação entre Joy Divison e New Order, correto?), com direito a uma animação da capa do disco Unknown Pleasures.







O New Order pode não ser o Arcade Fire, mas tem todo seu quinhão de espetáculo audiovisual, como dá para perceber. Jogos de luzes, clipes, imagens relacionadas a cada música, tudo isso só não faz você se sentir mais envolvido do que as camadas de teclados, quase tão densas (e tão diferentes) quanto a guitarra de Kim Thayil momentos antes com o Soundgarden. E as batidas. E as canções.




Logo após Bernard Sumner contar um caô qualquer sobre falta de ensaio, uma explosão vem do público quando reconhecem que se tratava de "Bizarre Love Traingle". A partir daí até o final são seis porradas dançantes, todas vindas dos anos 80 ( durante o show somente uma música nova foi tocada, a ainda inédita em estúdio "Singularity" - e não "Drop The Guitar", como enfatizou Sumner), todas recebidas como os hits que são ("5 8 6" foi marcante), tornando-o o melhor show da noite. E ainda tiveram a manha de não encerrar com "Blue Monday", que foi tocada, lógico, mas precedeu "Temptation".




Fogos de artifício encerraram o show e o festival, mas New Order ainda voltou para continuar pagando tributo a Ian Curtis e o Joy Division. Os teclados e a imagem no telão denunciam "Atmosphere". Muita gente indo embora, mas outros tantos dão meia-volta. Com toda essa vontade de homenagear Curtis e de onde surgiu o New Order, o final só poderia ser mesmo com "Love Will Tear Us Apart", o telão declarando pela banda: "Joy Division para sempre".




Um final bonito para um domingo bonito, uma saída tranquila de Interlagos e a esperança de que, apesar de um problema ou outro, os produtores de festivais podem estar começando a não tratar o público como gado. Ainda no comecinho, mas já dá pra acreditar em festivais melhores no futuro. A seguir, um resumo e os pontos positivos e negativos do Lollapalooza Brasil 2014.

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