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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Carnaval 2016, o Ano em que a Polícia Jogou Bomba e Gás nos Blocos Não-Oficiais





O carnaval deste ano foi bastante positivo e em muitos aspectos melhor do que o ano anterior, particularmente para este cumbuqueiro aqui. Mas chegando ao fim do período festivo nos deparamos com uma amarga conclusão. Depois de muitos anos de debates, ameaças, iniciativas, concessões e pouco diálogo, a prefeitura do Rio de Janeiro, através dos órgãos de segurança, resolveu combater os blocos que não pedem autorização para desfilar pelas ruas no carnaval.



Essa história dos blocos pedirem autorização à prefeitura começou em 2009, quando foi instituído o decreto visando o carnaval de 2010. A princípio, a ideia pode parecer simpática, quando se explicava que o objetivo era melhor coordenar os serviços como os de trânsito, limpeza, colocação de banheiros químicos e segurança. E, apesar da desconfiança, havia a promessa (informal) de não impedir os blocos de desfilarem.



Mas muitos blocos não engoliram essa história. No mesmo ano de 2010 a Antarctica vira a patrocinadora oficial do carnaval carioca. Isso não seria necessariamente um problema, se esse patrocínio não representasse uma terceirização do carnaval de rua, com as decisões visando agradar o patrocinador. A mais grotesca delas foi a proibição de que ambulantes cadastrados pudessem vender outra cerveja que não fosse "a boa" (que na verdade é a ruim).



No primeiro ano dessa "parceria", segundo notícias como essa, não era proibido a compra de outras marcas de cerveja. De repente, e a partir de 2013 existem matérias se referindo a isso, a venda de cerveja fica restrita somente a produtos milherentos da Ambev, sempre com predomínio da "ruim". Jornais bastante afinados com a atual gestão da prefeitura se apressam em apresentar especialistas em direito que afirmam não haver problema nisso, embora fosse preferível que não houvesse monopólio.




Extremamente discutível, uma vez que se trata de espaço público sendo negociado por terceiros, clara privatização das ruas durante o carnaval. Embora os ambulantes não-cadastrados fossem claramente perseguidos nos blocos "oficiais" e, creio, a fiscalização da mercadoria dos autorizados seja feita pela guarda municipal e a secretaria de ordem pública (SEOP), representando os interesses comerciais e privados da Antarctica, os blocos que não aceitaram as condições da prefeitura foram "tolerados". Com isso, era para lá que os ambulantes não-cadastrados iam, com relativa liberdade para vender cerveja que não é da Ambev, além do pessoal que vende sacolés alcoólicos, prática esta que virou uma arte e mais uma marca do nosso carnaval.




Lógico que isso não prejudicava os negócios da gigante cervejeira. Até chegar a crise... Que provavelmente não prejudica o maior conglomerado de cervejas do mundo, mas quem deseja o monopólio pode permitir concorrência, por menor que seja?




Essa é uma das possíveis explicações para o que passou a acontecer em 2016. Outra possibilidade é a preocupação da prefeitura com a politização dos blocos fora do oficialismo. Como candidato a sucessão do atual prefeito, temos um sujeito que agrediu a ex-mulher mais de uma vez quando foram casados e que primeiro negou, depois disse que foi uma vez (foi mais de uma), depois minimizou os episódios, em declaração que foi comparada a uma semelhante do goleiro Bruno, e mais recentemente alegou que apenas se defendeu de agressões da ex. Alexandra, a ex-esposa, sem histórico de ser faixa preta em nenhuma luta marcial, teve o dente quebrado em uma das brigas.







Ou seja, é uma candidatura, no mínimo, com muito a esconder. E em vários blocos, especialmente os não-oficiais, fantasias de "mulher do Pedro Paulo" com pessoas com ataduras, olhos roxos e outros machucados apareceram por aí. Mais do que nunca os blocos fora das vias oficiais foram pouco desejados pela prefeitura.



Pode ter sido por questões políticas, ou para proteger os interesses financeiros da empresa que "comprou" o carnaval carioca, ou por algum outro motivo. Essas hipóteses aqui aventadas não levam em consideração mudanças no comando da guarda municipal ou nas secretarias de cultura, turismo ou qualquer outro órgão que tenha alguma relação com o carnaval, além das aberrações que são as "milícias Presente".



De toda forma, apesar de problemas pontuais ao longo dos anos, foi claríssima a mudança de tratamento que os blocos não-oficiais receberam em 2016, sendo importante ressaltar que, da parte dos blocos, por mais diferentes que sejam entre si, não houve nenhuma diferença em relação ao que era feito nos anos anteriores.



Começou já na abertura não oficial do carnaval, na Praça XV, dia 3 de janeiro, evento que ocorre desde 2011, com dezenas de blocos ocupando a praça e seus arredores. Há notícias que, logo no começo, já aconteceu algum tipo de repressão por parte da guarda municipal. Mesmo assim, o cordão do Boi Tolo e vários outros blocos seguiram num cortejo pelas ruas do centro.


Segundo contam, a vibração era de alegria, apesar dos percalços e transtornos causados pelas obras que tem fechado e interditado diversos trechos de ruas no centro, mas sem deixar de se manifestar politicamente, gritando "Fora Cunha", por exemplo, nas escadarias do palácio Pedro Ernesto, sede da câmara dos vereadores, na Cinelândia.



(origem da foto: facebook)


Foi ali que a guarda municipal resolveu agir, entrando no meio do bloco para apreender mercadoria de um ambulante, que não estava prejudicando absolutamente ninguém com sua atividade. Não podia dar em coisa boa, e no meio da confusão os foliões reagiram ao abuso cometido pela guarda, que por sua vez resolveu transformar a cinelândia em praça de guerra, jogando bombas de efeito moral, balas de borracha e spray de pimenta indiscriminadamente em todos do bloco e até em quem estava no bar Amarelinho, o mais próximo da câmara dos vereadores. Depois de um tempo de correria, agressões e muita tensão, o bloco seguiu seu rumo até o MAM, mas para muitos a festa já tinha acabado.



Vídeo por Eliane Martins



GM ACABA COM BLOCO DE CARNAVAL
TROPA DE CHOQUE DE EDUARDO PAES ACABA COM A ABERTURA DO CARNAVAL DE RUA DO RIO DE JANEIROConfusão começou depois que Guardas Municipais tentaram apreender a mercadoria de um camelô.Carnaval 2016 promete!Que venham as "comemorações"!* Vídeo retirado do Facebook de parceiros.
Publicado por Mídia Independente-MIC em Domingo, 3 de janeiro de 2016



Vídeo por Grito Filmes




Teve quem achasse que a causa da confusão seriam os foliões que reagiram, que foi algo pontual, que não iria acontecer de novo. Um ato carnavalesco aconteceu poucos dias depois em resposta a esse episódio. Mas a verdade é que não demos a repercussão que era necessária ter. Ficou aí a possibilidade que fosse naturalizada a ação truculenta por parte da guarda municipal e/ou a PM contra outros blocos não-oficiais.




Naturalizamos absurdos de forma muito fácil por aqui. E foi o que acabou acontecendo no carnaval. Segue um histórico de algumas das ações de repressão e intimidação sofridas, em sua maioria, por blocos não-oficiais.





05/02 - Embaixadores da Folia

Relatos extraídos e condensados de um evento privado no facebook: "na sexta-feira a Guarda Municipal queria que nós saíssemos apressados e sem o carro de som, que tinha atrasado por conta da própria guarda ter atrasado o desfile do Vestiu Uma Camisa Listrada e Saiu Por Aí. Alguns guardas cercaram Dininho, de 80 anos, fundador do Embaixadores e do bloco Alvorada do Méier, que até mesmo passou mal". Uma das pessoas relata que teve o braço machucado e que "um comandante da Guarda nos ameaçava dizendo que estava falando com o secretário e ano que vem nosso bloco não saia mais". O Embaixadores da Folia é um bloco listado na agenda oficial de blocos da prefeitura, mas, por ser no centro da cidade, costumava ter mais tolerância por parte do poder público em relação a ambulantes, pelo menos nos anos em que fui no bloco.







07/02 - Boi Tolo

Como se não fosse o bastante o que fizeram na abertura não-oficial, foram pelo menos duas as ocorrências contra o bloco durante seu desfile durante o carnaval. Em uma delas não foi tão próxima do bloco, por volta das 18:00. Uma testemunha conta: "foi no jardim do MAM. O bloco estava parado mais perto do museu, mas tinha bastante gente próxima à mureta. Uma van do Aterro Presente estava passando, um cara fez uma dancinha perto da van e de repente o guarda espirrou gás de pimenta na cara dele. Um outro foi reclamar em seguida e levou também. A van saiu e uns dois meninos foram atrás correndo, revoltados. Apareceram mais duas motos do Aterro Presente. Os caras da van saíram com spray de novo. Parecia que estava jogando inseticida em barata. Pegaram um dos meninos e enfiaram dentro da van e foram embora. O primeiro menino ficou caído no chão enquanto o povo ajudava. Umas meninas ficaram com a garganta irritada."


Às duas da manhã foi a vez da PM atacar o Boi Tolo com spray de pimenta, quando o bloco estava no Aterro, segundo alguns relatos vindos do facebook.





Desenho por Ribs





08/02 - Vem Cá Minha Flor

Esse eu mesmo pude testemunhar. Em local bem próximo onde contam que aconteceu o primeiro ataque ao Boi Tolo no domingo, uma viatura da polícia militar com uns 3 PMs chegou ao local e um policial deixou a sirene da viatura ligada na frente do bloco. Passou uns 2 minutos com a sirene bem alta, até que finalmente desligou, recebendo todo o "carinho" dos foliões. Nisso foi para o rádio da PM e logo depois chegaram mais duas patrulhas. Depois um carro do Aterro Presente. Depois dois soldados do exército! Não sei o que acontecia dentro do bloco, mas o Vem Cá Minha Flor permaneceu tocando próximo ao vão do MAM e não se dirigiu ao Aterro, o que parecia ser a preocupação do policial. Mas a intenção de provocar e intimidar o bloco ficou claríssima.





08/02 - Bloco de Segunda

Notícias dão conta de que a polícia usou spray de pimenta quando um homem tentou defender ambulantes que tiveram suas mercadorias apreendidas no bloco que é oficial e desfila próximo à Cobal do Humaitá.







08/02 - Moita

O bloco que brotou no centro e fez um baile em cima de uma "laje" na avenida Antônio Carlos acabou sendo atacado, pelo que contam, já bem tarde da noite, quando estava na Avenida Passos. Um carro da polícia forçou passagem pelo bloco e, ao que parece, um policial resolveu sair do carro e jogar spray de pimenta no bloco para facilitar o caminho.







09/02 - Carnaval de rua da Praça de Inhaúma - Alemão

Não foi só no centro/zona sul e contra os ambulantes. Segundo o Coletivo Papo Reto: "Tudo começou quando eles tentaram entrar com a viatura da corporação no meio do evento lotado, para "informar" que era hora de terminar." Aqui tem mais detalhes e lembrando que, se é horrível que as forças de segurança estejam usando gás de pimenta e bombas contra blocos no centro e zona sul, no subúrbio e nas favelas a polícia faz muito pior e vai de tiro de fuzil mesmo.










09/02 - Viemos do Egyto

Quando o bloco passou pelo Monumento dos Pracinhas, no Aterro do Flamengo, soldados do exército atacaram o bloco com spray de pimenta, segundo vários relatos, por conta de duas mulheres terem ultrapassado uma corda que "protegia" o monumento (?).







10/02 - Mulheres Rodadas

Relato: "um policial munido de fuzil ameaçou parar o bloco, ameaçou gás de pimenta e simulou, correndo com o fuzil, que ia interromper o percurso".







10/02 - Planta Na Mente

Relato tirado daqui: "os únicos fatos que destoaram da paz no desfile foram as abordagens aos jovens, sem qualquer motivação, no final do bloco por policiais militares, que, inclusive, já se encaminhavam para o ônibus da PM, que os levariam para seus lares. Apenas uma desnecessária demonstração de poder". Mas talvez tenha sido o ano mais tranquilo na relação do bloco, que defende a legalização da maconha, com a polícia. Desta vez desfilando como bloco autorizado na prefeitura, pelo que falam fizeram um dos desfiles mais bonitos do Planta Na Mente. Mas a polícia não poderia deixar de tirar uma casquinha.







10/02 - Me Enterra Na Quarta

Eu estava no bloco em Santa Teresa, como já contei no post sobre os desfiles e cortejos deste carnaval, e já tinha sentido cheiro que parecia ser de gás lacrimogêneo (era spray de pimenta, viria a saber depois) logo no começo do desfile. Quando saí, uma viatura vinha em alta velocidade em direção ao bloco. Depois as notícias chegaram que o bloco, que terminaria em frente ao Bar do Gomes, foi atacado pela polícia quando estava passando pelo Centro Cultural Laurinda Santos Lobo. A entrada não autorizada de alguns foliões dentro do pátio do centro cultural teria sido o motivo para a PM jogar spray de pimenta no bloco todo. Com isso, o bloco recuou e acabou descendo a Rua Monte Alegre e foi pular o carnaval nas ruas da Lapa.









12/02 - Technobloco

O caso de maior repercussão aconteceu após o evento Não Aguento Mais Fanfarra em frente ao IFCS, promovido pela fanfarra Ataque Brasil e continuado pelo Technobloco pelas ruas do Centro, tanto pela violência da guarda municipal quanto pelos alvos das agressões. Afinal, quando agridem jornalistas, há muito mais espaço na mídia do que quando fazem até pior com um ambulante, não querendo julgar e já julgando (a todos nós). Pois as forças de segurança começaram as agressões justamente com um ambulante na Rua da Carioca.

Um dos relatos presentes na página do evento:

"No começo do Tecnobloco o Lapa Presente levou um ambulante que só berrava "eu não roubei! Eu não roubei nada!" Pessoas interviram, um cara de blusa listrada tentou filmar. Uma mulher confrontou o agente do lapa presente questionando porque estavam levando o cara e ele foi absurdamente grosso dizendo coisas ridículas como "cidadão de bem" e "quem é você?" no que ela responde "EU sou uma cidadã de bem e quem é VOCÊ?" Nessa hora eles enfiam o ambulante no carro e dão uma porrada violenta na cara dele!! O tal cidadão roubado não apareceu, as pessoas tentavam se meter e um outro ambulante aparece aos berros dps q eles vão embora dizendo "Ele não roubou nada! Isso é pq ele é da minha cor! Eu já tô cansado disso!"

Quando o bloco chegou na Praça Mauá, vendedores de sacolé alcoólico também sofreram com a sanha patrimonialista da guarda:

"Tive a ideia com uma amiga de vender sacolé de vodka no carnaval. (...) Essa foto foi tirada minutos antes da confusão começar na Praça Mauá. Estávamos felizes, clima de fim de festa e local lindo. Um homem que não estava uniformizado apareceu de repente metendo a mão em tudo e carregando as coisas. Quando percebeu que estava sendo filmado por outras pessoas, por conta da sua agressividade, passou por trás de mim me dando um empurrão disfarçado e me derrubou no chão. Levantei revoltado e comecei a filmar tudo. Em seguida apareceu outro homem, também não uniformizado, mandando parar de filmar. Jogou meu celular no chão e me deu uma banda. Percebi no chão que a guarda municipal se aproximava com capacetes e cassetetes. Levei dois chutes nessa hora e consegui levantar e correr. Sorte, pois seria linchado ali no chão. Bombas e gás rolando de pano de fundo. Nunca havia presenciado de perto essas barbaridades".

Infelizmente muitos já se acostumaram com a ação contra vendedores de bebida não-cadastrados e, embora menos frequente, com quem vende sacolé também. "Felizmente", com todo o pesar àqueles que foram agredidos, a guarda municipal perdeu as estribeiras desta vez um pouco mais além do limite, e escancaram que as ações durante todo o carnaval não foram casos isolados. O relato contido neste vídeo: "do nada a guarda mandou geral ralar da praça Mauá, aí depois diminuiu e só pediu pra se afastar do monumento, a galera saiu e acabou ficando próximo deles tocando até que acharam perto demais. Depois ali eles se juntam e batem numa mulher, nessa hora eu me aproximei pra filmar e fui derrubado e agredido no chão por um desses, que depois me perseguiu pela praça".

Entre as pessoas gravemente feridas com a truculência desmotivada da guarda municipal estava o editor de vídeo João Gila. Aqui alguns trechos do post dele no Facebook:

"Lembro de observar atentamente a movimentação da banda - que já começava a se afastar - e da guarda - que começava a se animar. Não houve depredação, não houve coquetel molotov, não houve cusparadas, apenas o som de trompetes, surdos e caixas apresentando-se como armas pacíficas contra aquela energia agressiva que se tornava cada vez mais evidente. E, sem nenhuma justificativa visível, as bombas começaram a estourar. Eu, que não sou louco nem nada, comecei a me afastar, assim como tantos outros. Mas dispersar não era o único objetivo da GM. Começaram a descer o cacete, mulher caída no chão, gente correndo desesperada. Nossa única arma, nesses momentos, é o registro do que acontece a nossa volta. Puxei o celular e me tornei uma ameaça. Sequer comecei a gravar e enfiaram-me três golpes de cassetete. Um no braço direito, um no braço esquerdo (o pior deles) e um nas costas.
Passei por uma cirurgia de mais de 7 horas para tentar recuperar o cotovelo desintegrado. Trabalho com edição de vídeo e, se não bastasse o estrago emocional, esses três golpes me deixaram sem o movimento de dois dedos da mão esquerda. Ainda não sei por quanto tempo, mas sei que por tempo o bastante para desestabilizar minha vida profissional. Serão 2 meses para o osso se recuperar e sabe-se lá quantas sessões de fisioterapia para regenerar todo o movimento do braço."

Mas o caso mais conhecido foi o do jornalista Bernardo Tabak, que viralizou um texto seu com uma foto onde mostrava os resultados das agressões da guarda municipal em suas pernas e em sua bunda. Alguns trechos do que ele, que já fez matérias na ditadura do Egito, escreveu: " (...) Tudo só alegria, música e dança, sem qualquer problema. Em alguns momentos, agentes da CET-Rio ajudaram a desviar o trânsito. Até adentrarmos a Praça Mauá, já no finzinho, por volta das 5h. Bateria dispersando. Multidão embriagada de cerveja e felicidade: um desbunde. Quando aparecem pelotões de guardas municipais, cada um com uns dez agentes, escondidos atrás de seus escudos: em vez de confete e serpentina, espocam pelo ar bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral. O “buummm” das explosões abafam os últimos instrumentos tocando. (...) Afirmo: não vi qualquer depredação durante todo o desfile, não vi pichações e não vi ninguém lançando garrafas contra a GM-Rio (nem em nenhum dos vários vídeos que já assisti até agora). Revoltado, recorri ao melhor instrumento de denúncia que aprendi a usar nestes 15 anos como jornalista: informação e divulgação. Foi demais para eles. Só deu tempo de ver dois botinudos, com capacetes e raiva, vindo em minha direção. Mais dois segundos, e um já tinha arrancado meu celular e atirado longe. (...) Vieram atrás, tomaram de novo e só vi um guarda pisando em cima. E perdi contato visual com meu celular. Quando um deles, por trás, como todo covarde, me deu um mata-leão – na delegacia soube seu nome: Souza. Tinha mais um próximo que não consegui ler o nome: vários estavam sem identificação."







14/02 - Teimosos do Porto

O pequeno bloco foi impedido de circular pela Praça Mauá, segundo esta postagem:

(...)
"Teimosos do Porto, bloco de sujo, espontâneo, sem divulgação nem patrocinadores... com idosos, crianças e cachorros, que não ultrapassa quarenta foliões moradores e amigos da Região Portuária. Hoje ele foi parado na "nova" Praça Mauá (mesmo respeitando as leis de trânsito, antes das dez da noite, e sem depredação alguma do mobiliário urbano) pela Guarda Municipal. O argumento? Não tínhamos alvará."





Em resposta a esses episódios, em especial ao ocorrido durante o Technobloco, foram organizados o evento Bloco dos Machucados (que depois virou Ala dos Machucados) e o ato carnavalesco Liberdade, Folia e Luta, que foram ocupar do Largo da Prainha até a Praça Mauá com música e folia, criticando a violência contra blocos e contra ambulantes. "Coincidentemente", na Praça Mauá estava uma bandinha da guarda municipal tocando "Bandeira Branca" e distribuindo rosas. Mesmo assim o bloco ocupou a praça e depois foram até a Alerj.






CONCLUINDO O TEXTÃO (com mais textão)


Especulações sobre os motivos para esse tipo de repressão aos blocos são várias, como já coloquei no começo do texto. Além da preocupação clara em manter o monopólio do patrocinador do carnaval de rua e, talvez, de evitar manifestações politizadas demais, também foi possível notar um zelo feroz com a Praça Mauá. A mensagem é clara: a praça não foi feita para ocupação espontânea e que não gere lucro direto para o cofre dos patrocinadores. Pense aí: se fizeram o que fizeram com um bloco de carnaval já quase se dispersando, o que já não devem ter feito com camelôs, pessoas em situação de rua, skatistas e outros que não se adequem ao "perfil" pretendido para aquele espaço público?



É importante frisar mais uma vez que, por parte dos blocos e dos foliões, não aconteceu nenhuma mudança de comportamento em relação aos anos anteriores. Pessoas continuam subindo nos monumentos públicos em alguns trajetos, ocupando-os momentaneamente, mas sem depredação, apenas contribuindo para uma forma diferente de vivenciar o espaço, em especial no Centro; blocos continuam brotando e, na maioria absoluta dos casos, respeitando o trânsito na rua e liberando pelo menos uma via; os ambulantes que não são cadastrados, pelo menos nos blocos não-oficiais, não têm atrapalhado o ritmo do desfile e, posso estar enganado, mas me parece até que diminuiu em relação a outros carnavais (eu mesmo costumo trazer de casa a maior parte da cerveja que consumo).



Também cabe deixar bem exposto que não há registro de nenhuma briga ou violência entre foliões nos blocos não-oficiais.



O que mudou foi a forma do poder público lidar. Com os ambulantes já havia a repressão, mas este ano aconteceu de forma mais ostensiva, sem se importar com a reação das pessoas ao lado (vide Boi Tolo no começo do ano, Bloco de Segunda e Technobloco), ou até mesmo como forma de provocação, buscando o conflito. Quando não era dessa forma, a provocação vinha acelerando com a viatura ou utilizando ela como meio intimidatório, como aconteceu por exemplo com o Moita, Me Enterra Na Quarta e Vem Cá Minha Flor, ou com a polícia e/ou guarda municipal ameaçando parar o bloco, caso, entre outros, do Mulheres Rodadas. Em todos os casos ficou muito claro que, sabe-se lá de quem partiu a ordem, foi recomendado o uso sem moderação do spray de pimenta, independentemente se a integridade do agente da lei estava ou não ameaçada. Nunca tinha sido usado no carnaval da forma e intensidade como foi usado em 2016.




Apesar de tudo isso, o carnaval 2016 foi "tranquilo e favorável", como escrevi sobre os blocos em que fui (aqui, aqui, aqui e aqui), até porque, por alguma sorte, não presenciei a maioria desses episódios de agressão. Mas não se pode naturalizar, banalizar o uso de força desproporcional e injustificado da polícia contra os blocos, por motivos que não são sequer explicitados. O que eles querem é gerar o medo e ver definhar o carnaval livre e que não aceita regras que beneficiam muito mais um ente privado do que o povo.



O que podemos fazer para isso mudar em 2017? Contar e mostrar essas histórias é um passo importante. Mais importante ainda é mudarmos o comando da administração da cidade, pois se continuarmos justamente com aqueles que são os responsáveis por esses abusos, sendo que um dos candidatos ligados ao atual prefeito tem histórico de violência até mesmo em sua vida particular, não poderemos esperar nada diferente para o ano que vem.




Tentei linkar no texto o máximo de informações possíveis que encontrei na internet. Posteriormente vi algumas dessas informações corroboradas na página do vereador Renato Cinco, enquanto outras vieram do evento Não Aguento Mais Fanfarra, do grupo do Me Enterra Na Quarta e de mensagens por Facebook e Whatsapp. Para saber mais sobre a atuação e motivações desses efetivos "Presente" que são seguranças particulares pagos pela Fecomércio, leia aqui e atente para o tamanho de detenções por uso de entorpecentes e de moradores de rua em relação às prisões por roubo/furto. Leia, pesquise e pense qual carnaval você quer: o da alegria ou da violência patrocinada pela prefeitura?


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