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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Planeta Terra 2013: Beck, Blur, Roots, BNegão, ótimo som e confusão com sistema de ingressos marcam o festival






Existe território mais difícil para um fã de música do que um festival de música no Brasil? Já somos rota de shows internacionais há algum tempo e, embora ainda estejamos devendo nomes como Nick Cave and The Bad Seeds e Weezer (que já passaram por aqui, mas há bastante tempo), Leonard Cohen e Van Morrison, ainda não importamos uma coisa muito importante nos melhores festivais americanos e europeus, que é o respeito com o consumidor, aquele que paga para estar lá e que, efetivamente, faz o festival acontecer.



Uma das raríssimas exceções era o Planeta Terra, festival que acontece em São Paulo e que temos acompanhado por aqui desde a segunda edição e sempre com muitos elogios a fazer. Ano passado, por conta de uma escalação de bandas menos interessantes (e com o Garbage lançando um disco muito, mas muito ruim) não pude conferir como foi a mudança de local do Playcenter para o Jockey Club.




Este ano, nova mudança, desta vez para o Campo de Marte. Mesmo com uma quantidade bem mais modesta de atrações internacionais em relação aos anos anteriores (seis, quando antes eram 10; lembra aqueles biscoitos recheados de chocolate que estão diminuindo a embalagem e aumentando o preço), a qualidade compensou e atraiu um público interessado em ver desde atrações daquilo que era chamado de "alternativo" nos anos 90 até aquilo que hoje é chamado de "indie".




Mas para começar a adentrar esse mundo, primeiro uma barreira difícil de ser transposta. Quem comprou o ingresso e escolheu retirar na bilheteria na hora, não conseguia porque o sistema eletrônico do festival estava fora do ar. Até que conseguissem resolver criando "gambiarras" para quem tinha o número de confirmação da compra do ingresso ou o número do cartão de crédito, lá se foi embora o show d'O Terno.



Não deixa de ser irônico que no primeiro ano em que entram em parceria com a empresa Tickets For Fun, o maior problema do Planeta Terra tenha sido com... tickets. Irônico e, ao mesmo tempo, nenhuma surpresa, infelizmente.




Antes disso, hordas de cambistas por todas as ruas próximas ao Campo de Marte, e próximos à entrada também. Na saída do festival, uma certa dificuldade em transpor uma muralha de ambulantes vendendo água. Até que ponto cuidar desse tipo de situação é responsabilidade ou não do Festival fica para cada um opinar. As filas que se formavam para comprar tickets for fun para comer e beber lá são responsabilidade do festival e algo que não vi ocorrer nas outras edições com tanta frequência quanto dessa vez. E pior, filas grandes para se pagar o preço de sete reais por uma cerveja.




Mas então, o Terra foi um péssimo festival, certo? Errado. Embora não possamos esquecer desses problemas e torcer para que ano que vem eles não se repitam, a verdade é que, no comparativo com qualquer outro festival brasileiro que propõe juntar dezenas de milhares de pessoas em um mesmo lugar, a superioridade deste é marcante em relação aos demais. Da disposição dos palcos, próximos, mas sem necessariamente o som vazar de um para o outro, aos banheiros, limpos e com água corrente, passando pelos horários das atrações cumpridos à risca, sem atrasos, nos faz perguntar porque em coisas tão simples para quem quer tratar bem os seus clientes, festivais como Lollapalooza, Rock in Rio e o finado SWU não conseguem entregar.




De todos os pontos positivos, o mais importante: o som. Muitos de nós já sofremos em ver uma banda que gostamos tocando em um palco onde parece que a última preocupação foi justamente aquilo que deveria ser mais importante (depois do público): o som. Baixo, com instrumentos falhando, Alto e estourado... Nada disso aconteceu nas atrações que pude conferir deste Planeta Terra em várias distâncias em relação ao palco, o que elevou em muitos graus a experiência de assistir a alguns dos artistas tão aguardados. Dá para dizer, mesmo com minha pouca experiência no assunto, que se igualou a festivais internacionais.




Quem conseguiu se sobressair com esse detalhe essencial em perfeito funcionamento foi o Beck. Há doze anos atrás o multirrítmico americano tocou na terceira edição do Rock in Rio. Por motivos que só alguém que faz um festival e não gosta de música pode explicar, enquanto o cara e sua super banda davam a impressão de dar o sangue em cima do palco, para o público chegava um som baixinho e pálido. Mesmo que não fosse um nome tão conhecido assim, o desânimo ia e voltava entre público e banda, esfriando uma apresentação que poderia ter sido memorável (como foi o R.E.M., com o som bem mais alto, horas depois).







Voltando para 2013 e, com boa parte dos presentes assistindo a insossa Landa Del Rey no palco ao lado, Beck e sua turma já entram rasgando com o riff inconfundível do Them de "Devil's Haircut", com vontade de ganhar o jogo logo. E depois de emendar "Novacane" com "One Foot In The Grave" já veio com uma versão suja de "Loser", com um belo coro da plateia.







Teve também espaço para as lindas músicas que pendem para um lado mais folk, como "Lost Cause" e "The Golden Age", mas a excelência desse show consistiu muitas vezes nisso: sujeiras vindas da distorção das guitarras e eventuais camadas de efeitos eletrônicos, em um misto de organicidade/artificialidade em cima de ritmos que faziam o público dançar e se empolgar mesmo em faixas menos conhecidas. Somem-se a isso os detalhes: o guitarrista do Beck tocando um trechinho de "Asa Branca" (suspeito que muita gente por ali tenha ouvido a música pela primeira vez, e não estou sendo irônico); o humor bastante peculiar do Beck, fazendo graça com chavões e clichês da música, ao mesmo tempos que os homenageia, de solos de guitarra a James Brown, passando por Kraftwerk, primórdios do rap, Gilberto Gil, e os enxertos musicais de "Tainted Love" na versão do Soft Cell e "Billy Jean" de Michael Jackson.






E teve ele, o baixista Justin Meldal-Johnsen, que é um show à parte. Não só pelo seu corte semi-afro e pela constante troca de instrumentos a cada música (e, em uma vez, na mesma música), mas também pelos passos de dança que por vezes chegam a ofuscar o baixinho no centro do palco e às ótimas participações nos vocais de apoio. Para encerrar, "Where It's At" em um setlist que, se olhando friamente podia ter "The New Pollution" e "Sexx Laws", quem ficou até o final (teve gente que, mesmo dançando, começou a sair para arranjar um lugar bom para assistir o Blur logo após) teve certeza que se tratou de apresentação irretocável.







Mas voltando ao começo, com BNegão e Seletores de Frequência, temos a certeza que BNegão se consolida como um dos artistas mais completos do Brasil. Seja com o Planet Hemp ou com seus Seletores, Bernardo é sempre garantia de um show que passa da música negra de diferentes matizes - rap, dub, funk, afrobeat - ao peso mais sinistro provocado por baterias velozes, guitarras pesadas e vocais guturais, auxiliados nesse quesito pelo eterno convidado MC Paulão.







Depois de uma espera interminável em uma fila, veio o Travis desperdiçando muito daquilo que poderia mostrar de bom. Enquanto Beck já chegaria mais tarde mostrando logo suas cartas, a turminha escocesa de Fran Healy só traz um grande hit ("Side", no caso) mais de dez músicas depois do início do show. E a cada "this is a new one", o afastamento do palco era maior em direção ao show do The Roots.







Músicos mega tarimbados, que tem como "face" mais reconhecível o baterista "?uestlove", The Roots fez um autêntico bailão de música, com tudo que isso tem de bom e de ruim. É inegável que a competência dos caras e a capacidade de animação que eles exercem sobre a plateia, em especial com o músico apelidado de "Tuba" Gooding Jr., por conta do instrumento que toca. E eles conseguem isso também porque fogem de alguma expectativa de que se ouça mais rap e RnB deles do que qualquer outro gênero.







Mas chega uma hora entre "Sweet Child O'Mine" dos Guns and Roses e "Immigrant Song" do Led Zeppelin, com eles passeando por soul, reggae, rock, funk e o que mais pintasse, mas sem algo que fosse realmente memorável, que fica tudo confuso demais. Ótimo, mas mais como demonstração do que sabem fazer do que daquilo que podem criar.




Já o Blur demonstra menos do que sabe fazer e muito mais do que sabe criar com uma coleção de músicas que marcaram época nos anos 90. Geralmente elas vêm coladas em sequência: começaram logo com "Girls & Boys", "There's No Other Way" e "Beetlebum". Depois têm a marra de, logo depois de "Coffee & TV", tocar "Tender". "Country House" e "Parklife" também chegam juntas. Óbvio que é "Song 2" que chega para arrebatar.







Em nenhuma dessas músicas eles demonstram alguma habilidade espetacular, deixando que as próprias composições e o bom som do festival levem boa parte do crédito para embalar os fãs. Claro, tem Damon Albarn indo se encontrar com a galera lá embaixo, Graham Coxon com sua aparente apatia sendo bem barulhento quando quer e o baixista Alex James dançando de forma um pouco mais estranha do que de costume.




Mas é em músicas como "Out of Time", "Trimm Trabb" e "This Is a Low", que não chegam a ser hits absolutos caso você não seja um ardoroso conhecedor do Blur, que o grupo demonstra e justifica a volta deles aos palcos depois de anos, e justificam também a volta ao Brasil depois de uma primeira vez pouco vista no final dos anos 90. E para coroar esse final, uma saída relativamente fácil (noves fora os ambulantes de água impregnando o espaço) até o metrô, algo que realmente faz a diferença quando se quer ter uma boa lembrança de um festival.




O saldo final do Planeta Terra é que, caso consiga corrigir alguns problemas e o novo parceiro embarque na proposta de respeito aos fãs de música, o que tem sido a tônica do festival desde o começo, a vontade é que o festival continue existindo por muitos e muitos anos.

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