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terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Show inteiro: Juçara Marçal com seu Encarnado no Circo Voador (29/01/2015)






Falar sobre como foi um show às vezes pode ser algo bem complicado. Na verdade é sempre complicado e nós no La Cumbuca enfrentamos essa complicação centenas de vezes desde o fim de 2007, resenhando de Jonathan Richman a Jards Macalé, de Ron Carter a Black Alien, de Feist a Walter Franco, tudo sempre baseado em nossas impressões e na "quilometragem" de anos e anos de shows.




Outra pessoa pode ver os mesmos shows que nós vemos e ter opinião completamente diferente sobre eles. Às vezes uma banda completamente amadora pode dar uma "autenticidade" ao som e ter um resultado muito melhor do que um time de músicos profissionais, perfeitos em execução e ao mesmo tempo frios, sem emoção.




Às vezes o calor do lugar pode ser complemento determinante para a beleza do espetáculo, enquanto em outros momentos pode ser sufocante e desesperador (convenhamos que nos últimos dias no Rio ficamos com a segunda opção).




Porque estou falando isso nesta postagem sobre o show da Juçara Marçal na última semana do festival Picolé, que aconteceu no Circo Voador em janeiro? Porque de todos os shows que já resenhei no La Cumbuca, poucas vezes foi tão difícil falar algo que faça um mínimo de sentido quanto sobre Juçara e as músicas do Encarnado, o melhor disco de 2014 na minha opinião e de mais um punhado de gente.









Foi difícil falar sobre quando ela se apresentou ano passado na Audio Rebel. Tão difícil que desisti. Não é difícil porque é o melhor show de todos os tempos. A dificuldade acontece em encontrar um conjunto de palavras que consiga expressar o que exatamente acontece ali.









Assim como no intimismo da Audio Rebel, o mesmo acontece na "expansividade" do Circo Voador. Em horário proibitivo para uma quinta-feira, um público resistente e ávido para a experiência do Encarnado permaneceu e foi muito bem recompensado.









Bem sabido que o Encarnado não é um disco fácil. É fora de qualquer padrão que se possa esperar de uma intérprete cantando músicas de artistas como Tom Zé, Itamar Assumpção e Siba, entre outros. E não é essa uma das maravilhas do disco, a quebra de expectativas, a surpresa?









Mas daí que o "entre outros" estão Rodrigo Campos e Kiko Dinucci. Tanto no disco quanto no show Kiko toca guitarra, Rodrigo se alterna entre cavaquinho e guitarra (completa a formação Thomas Rohrer na rabeca) e é de Rodrigo a música que abre o show, "Velho Amarelo".









Não sei se vocês percebem, mas eu percebo, pelo que escrevi até agora, que não revelo a mínima ideia do que é ver esse show. "Não diga que estamos morrendo, hoje não", canta Juçara. Pois as letras digitadas aqui estão mortas, incapazes de reavivar a emoção que o público sentia naquele momento, nos agudos de "Queimando a Língua", nos gritos de "Não Tenha Ódio No Verão" e não me façam começar a falar de "Ciranda do Aborto" que um nó na garganta logo surge.








A resenha é incapaz de trazer aos seus ouvidos as distorções no meio das linhas melódicas trazidas por Kiko, Rodrigo e Thomas. Muito menos é capaz de destrinchar apropriadamente a gama de emoções que a voz de Juçara traz, cantando tantas vezes temas mórbidos no meio da fúria dos ruídos do trio que a acompanha e ao mesmo tempo sem que nada disso seja incômodo.










Pelo contrário, é envolvente. Tão envolvente que bateria ou percussão não são ausências sentidas mesmo em sambas como "Damião" e "João Carranca", embora o público naturalmente comece a fazer marcações com palmas em algumas músicas, exemplo de "Velha da Capa Preta" e "Opinião".









A "Opinião" de Zé Keti, "Comprimido" de Paulinho da Viola e "Xote da Navegação" de Dominguinhos e Chico Buarque, são músicas que não entraram no Encarnado e realçam a importância dos arranjos criados para o disco, em especial no caso de "Opinião", conhecida na versão cantada por Nara Leão e que ganha contornos e timbres que se encaixam ao universo musical criado por Juçara e trio.









Tentando falar algo que possa fazer sentido sobre o que é o show (e o disco) de Juçara Marçal: se você aceita entrar na viagem da cantora, você mergulha. E quando você mergulha você descobre que as águas são profundas. E você vai se afogar. E isso não é ruim.




Eu e Fábio Fernandes gravamos a íntegra de Juçara Marçal no Circo Voador. Assista clicando aqui ou no tocador aí embaixo.






Músicas gravadas:


Velho Amarelo

Damião

Queimando a Língua

Pena Mais Que Perfeita

Xote de Navegação

Odoyá

Ciranda do Aborto

Canção Pra Ninar Oxum

E o Quico?

Não Tenha Ódio no Verão

Comprimido

João Carranca

Presente de Casamento

Velha da Capa Preta

Bis:

Opinião

Velho Amarelo




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Em breve, resenha dos outros shows daquela noite, Iconili e Zebrabeat.

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