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terça-feira, 30 de novembro de 2010

30 anos do último sumiço de Cartola



Cartola não teria argumentos para explicar a obra que tem se não fosse o raro talento natural. Era pobre e com pouca instrução, utópico seria para a maioria dos que vivem nessa realidade atingirem o nível poético de Angenor de Oliveira. Poucos que se destoam do bando e terminam em viver além do simples. Designar uma trama tradicional para a sina de Cartola seria um pecado que deus, ou quem quer que seja, não ousou cometer.

Um dos criadores do conceito 'escola de samba', conviveu com Noel e outros grandes compositores do gênero desde cedo; sempre atingia o ponto certo em suas canções. Mas só lançou um disco depois dos 60 anos. Bastante tempo que suscita inúmeras justificativas, entre muitas histórias, o certo é que ele passou um tempo em exílio inventado até ser visto lavando carros por Sergio Porto. Tão virtuoso com as letras como Cartola, mas o conto do sambista que some, desaparece, casa, descasa, diz que ama e trai, ele nunca escreveu.


Entre sorte, mistério e talento, o cara que usou um Ray Ban, virou o café e tirou uma foto para a capa do terceiro disco, é um dos artistas mais reverenciados da terra brasilis. "O Sol Nascerá", composição de Cartola com Elton Medeiros, encabeça a lista da músicas brasileiras com mais regravações; "O mundo é um moinho" e "As Rosas Não Falam" também são marcos da brasilidade.

Os dois álbuns iniciais, lançados pela Marcus Pereira Discos, são obras primas que escapam do rótulo "samba" e comovem até os algoz do tipo. De 1974 e 1976, eles concentram as músicas supracitadas e demais encantos como "Quem me vê sorrindo", em que Angenor dispara com suavidade o que ele mesmo chama de "erro de toda humanidade", "uns choram por prazer, outros com saudade". Em "Alegria", dispara a raiva sem pudor com a estética mais alegre possível, "Eu sei / Que teus beijos e abraços / Tudo isso não passa / De pura hipocrisia / Já que tu não és sincera / Eu vou te abandonar / Um dia". Um deboche com a classe de quem não se rebaixa, mas sabe dos seus erros.

O elenco irretocável de canções instruídas por dor e prazer é um ícone para quem se emociona com música. Sem interferência do péssimo lugar comum, Cartola acerta em cada letra no calcanhar de aquiles dos insensíveis. Todos caem do altar sensibilizados pela voz não bela, mas afinada e certeira. Desabando na foz inquietadora da verdade embalada na paixão.

Hoje faz 30 anos do seu exílio definitivo. Acontece. A gente disfarça e chora, mas não esquece ou abandona. Vida longa ao célebre morador da Mangueira, que hoje não ia gostar muito das coisas como são, mas certamente teria algo surpreendente a dizer.

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