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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A Última Sessão de Cinematheque

Autoramas - 03/07/10

Ao fim do show do Autoramas na sexta-feira do dia 02 de julho, como parte da festa Ronca Ronca, eu pensava o quanto eu não gostava daquele lugar. Não gosto desse esquema de múltiplos preços: com lista amiga, sem lista amiga, com lista amiga até hora x, com lista amiga depois da hora x, sem lista amiga até hora x, e tantos outros formatos de pagamento foram usados por lá esses anos.



Não gostava do som da casa na maior parte dos shows que vi. Vá lá que posso dizer o mesmo de quase todas as casas de show no Rio de Janeiro, à exceção talvez do Circo Voador e do Oi Futuro Ipanema. Mas também não gostava da iluminação precária que era usada nas apresentações, em geral só um spot e mais nada. Achava que as bandas e o público mereciam mais.



Ao mesmo tempo, como eu amo aquele lugar, como fui feliz naquele espaço no fim da rua Voluntários da Pátria, tão pertinho do metrô (o que geralmente era inútil, por conta do horário proibitivo que os shows começavam). Foi ali que gente que só pode gostar muito de música teve a coragem de trazer artistas que certamente não teriam muito público, a despeito de suas qualidades.



Foi ali que testemunhei dois shows do Mula Manca e a Fabulosa Figura, de Recife. Eles, que fizeram o que pra mim é um dos cinco melhores discos da última década, encontraram ali pouca gente, alguns amigos e alguns fãs capazes de pedir músicas do primeiro disco, quando ainda eram Mula Manca e a Triste Figura.


Mula Manca - 10/10/08


Hoje, parte da Mulinha defende com a banda Seu Chico o repertório do talentoso atacante do Politheama. Então só posso ser grato por poder ter visto Castor Luiz abrindo os braços por cantar "Fórmula 1", por ver músicas novas defendidas por ele e Tibério Azul que poderiam fazer parte de um próximo disco que o tempo e os projetos paralelos mostram cada vez mais distante.


Mula Manca - 10/10/08


Foi ali que vi Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta, mais uma banda de nome extenso, estes vindos de Salvador. No auge da carreira, embora você que esteja lendo isso (duvido que alguém tenha chegado até aqui) sequer saiba quem eram (encerraram atividades faz pouco tempo) e que lançaram um dos melhores discos do ano passado, Frascos Comprimidos Compressas.


Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta - 21/10/09


Melhor ainda, vi com amigos que também gostam do grupo, amigos com diversas conexões Rio-Salvador, pulando e cantando as músicas de forma apaixonada, como um show deve ser, embora outra parte da platéia se espantasse e preferisse um comedimento que a música da turma de Ronei Jorge muitas vezes não comporta.



Imagine o espanto dessa parte do público com os fãs mais tresloucados fazendo um trenzinho, pulando como se fosse baile de carnaval durante a música "Aquela Dança". Não deve ter sido maior que o espanto da banda, visivelmente emocionada em presenciar a entrega que havia ali à execução do repertório deles. Mais que espanto, havia incredulidade.


Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta - 21/10/09


Eles não esperavam encontrar essa recepção e mal conseguiam agradecer quando não havia mais música para tocar. Antes disso, ainda tivemos a oportunidade de ver a participação guitarrística do produtor do segundo disco deles, o Pedro Sá.


Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta - 21/10/09


Pedro Sá faz parte de uma turma de músicos do Rio, de bandas como Mulheres Q Dizem Sim, +2, Rubinho Jacobina e a soma de todos esses elementos que é a Orquestra Imperial. Ele não participou, mas poderia ter feito parte do super-time escalado para tocar com o músico paulista Rômulo Fróes.


Romulo Fróes - 28/11/09


Foi ali que eu vi Gabriel Bubu, Kassin e Domenico auxiliando Rômulo a mostrar outro grande disco de 2009 e da década. Contei um pouco dessa história aqui. Foi ali que vi outra turma do Pedro Sá, o +2, contando histórias e cantando músicas, como parte do projeto de talk shows do Festival Humaitá Pra Peixe de 2008.



Foi ali que vi o Cérebro Eletrônico, de São Paulo, trazendo o universo de artistas “malditos” dos anos 70 para o século XXI, com uma explosão de cores e brinquedos que me fazem crer que a banda merecia um espaço maior. Foi ali que vi no mesmo dia o Jumbo Elektro, que na verdade é o Cérebro Eletrônico (e vice-versa) com uma proposta musical diferente.



Foi ali também que vi o Brasov, o João Brasil, o Paulinho Moska, a Mart’nalia, Nina Becker, Do Amor, Lucy and the Popsonics, Rubinho Jacobina e provavelmente mais alguns artistas que não consigo lembrar.



E não poderia haver escolha melhor que os Autoramas e a festa Ronca Ronca para eu estar ali pela última vez. Sobre o Ronca Ronca, eu e o Túlio Brasil falamos aqui pelo menos uma vez por semana.



Autoramas é uma das minhas bandas favoritas pela capacidade do vocalista e guitarrista Gabriel Thomaz de explorar tão bem e de forma tão direta os temas propostos em suas músicas, sem perder o vigor do RRRRock, como eles gostam de dizer.


Autoramas - 03/07/10


Some-se a isso as batidas precisas de Bacalhau e a segurança de Flávia Couri no baixo e o que temos é um show com poucas chances de dar errado. Essa era a terceira vez que via os Autoramas no formato acústico e embora eu já estivesse com saudades do baixo distorcido e de músicas mais pesadas, o som nessa noite estava especialmente bom, justo o som de lá que eu reclamava.


Autoramas - 03/07/10


Depois do show, Maurício Valladares tocou vários clássicos ronquísticos, como "Dancing On The Moonlight" do Thin Lizzy e "London Calling" do The Clash. Naquela hora pude fechar os olhos e perceber que era um fim de noite especial, a última vez que eu estaria ali no Cinematheque.



Que se tornou apenas mais um empreendimento imobiliário de uma cidade que não cuida direito da sua memória.


4 comentários:

Matheus Pinheiro disse...

Acho que o Cinematheque foi um dos grandes responsáveis por revitalizar aquela área do Baixo Botafogo, e acabou sendo vítima de sua própria artimanha: A proliferação de barzinhos e o ressurgimento da "vida noturna" naquela área, associados ao boom imobiliário, fez o local se valorizar consideravelmente. Segundo o Grupo Matriz, o proprietário se recusou a renovar o contrato de aluguel, pois era preferível ($$$) vender.


Também tinha algumas ressalvas em relação ao local, mas é aquele lance... Ruim com eles, pior sem eles. Vai deixar saudades, abs.

deixaeudormir disse...

Tô pasmo...Não frequentava o local, apesar de presenciar bons momentos por lá. Ao começar a ler de cara pensei, "vão fazer um condôminio lá..." e não é que acertei? carajo...

É a Especulação Imobiliaria fodendo com nossas aspirações...

Romulo Fróes disse...

tudo o que você fala sobre lugar é verdade, mas quero destacar principalmente:

Foi ali que gente que só pode gostar muito de música teve a coragem de trazer artistas que certamente não teriam muito público

Toquei por lá duas vezes, as duas únicas vezes que toquei no Rio de Janeiro. Da primeira vez, lançando meu segundo disco, o sujeito topou bancar as passagens de ônibus e a grana da minha banda. Toquei duas noites, sábado e domingo para um público total, somando os dois dias, de 50 pessoas talvez. Certamente o lugar perdeu dinheiro, no máximo empatou. Nem por isso deixei de ser bem tratado, foi cumprido o combinado no prazo determinado e o dono do bar foi só elogios e agradecimento. inacreditável!!! E quando lancei meu disco mais recente, que fiz com a banda carioca que você cita no texto, ele topou pagar um cachê fixo, independente do público, que desta vez foi maior em uma única noite que da outra vez. As portas estavam e ficariam abertas de novo. Alguém pode dizer(não eu), mas você e sua geração merecem muito mais, isso é pouco. Pode ser, não discuto isso, mas é assim que é agora e o Cinemateque vai fazer muita falta sim! Espero encontrar outro lugar que tope me levar ao Rio pra lançar meu disco novo no ano que vem. Brax!!

flock disse...

moro perto e anteontem passei em frente quando de fato o lugar virou um monte de entulho. estranha sensação. no início de outubro fotografei a derrubada da árvore.
http://tinyurl.com/24ybfnl
http://tinyurl.com/2gxn7bz

ps: bandinha de dá dó, um dos ótimos shows que vi no cinematheque :) esse do ronei jorge realmente foi absurdo! e ainda pude conhecer o edinho pessoalmente, cara que sou fã há tempos dos trabalhos de ilustração.