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quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Passado: HPP 2009 - 17

Resenha dos shows de Paraphernalia e Vitor Araújo no HPP2009.



16/01/2009
Do Groove Ao Erudito

Paraphernalia e Vitor Araujo mostram a diversidade da música instrumental


A segunda semana do HPP09 começou temática. As duas atrações da noite tinham como semelhança tocarem música instrumental, nada de letras em cima das melodias. A partir daí o único ponto em comum entre o pianista Vitor Araújo e o octeto Paraphernalia é que fizeram dois grandes shows. E mesmo essa característica instrumental não foi assim tão rígida.



Primeiro vieram os oito músicos do Rio de Janeiro. Alguém gritou lá atrás: "Faz barulho, Bernardo!", e o guitarrista Bernardo Bosisio respondeu que ia fazer. E fez. Não só ele como todo o grupo, tocando em quase uma hora levadas funky, soul, sons latinos, e timbres, muitos timbres diferentes, especialmente da guitarra de Bernardo e do teclado de Donatinho, que não parava de se balançar mesmo quando estava solando.



Aliás, diferente do que se poderia imaginar, há poucos solos nas músicas. Dá pra notar que qualquer um dos músicos poderia fazer o que quisesse com seu respectivo instrumento, mas eles não estão ali pra exibição de virtuosismo. O grande destaque deles é justamente a eficiência como conjunto para fazer curtir um groove e botar o pessoal pra dançar, o que teria acontecido não fossem as cadeiras inibidoras da Sala Baden Powell, já que muita gente mesmo sentada estava balançando igual o Donatinho.



Paraphernalia guarda algumas semelhanças com Brasov, outro grupo (quase) instrumental do Rio, com a diferença que Brasov é bem mais performático e usa mais do humor. O humor do Paraphernalia aparece no intervalo das músicas, quando Bosisio anuncia que vão tocar "Palhaço Birico", música que conta a história do palhaço que se afunda nas drogas e no álcool. "Embora sem letra, mas conta essa história", explica Bosisio.



Quando tocam "Salvem as Baleias" alguns ficam olhando os peixinhos que aparecem projetados no telão. Em "Pára-quedas Reserva" o trombonista Marlon Sette empolga a galera, tocando e jogando a mão pro alto como se fosse um rapper. Em "A Fúria do Dragão 2" o clima é de trilha-sonora de blaxpoitation, perseguição de carros e kung fu, anos 70 total.



Bosisio usava de um talk box e no telão apareciam cenas de uma estrada nervosa, enquanto crianças corriam e brincavam na frente do palco, em uma das platéias mais diversificadas do Humaitá Pra Peixe: além das crianças, haviam senhoras, jovens e loucos em geral que preencheram boa parte dos espaços da Baden Powell.



É hora do intervalo para retirar a parafernália do palco e colocar o piano de cauda. Há um ano atrás Bruno Levinson, organizador do HPP, lamentava que nunca tivesse participado um artista erudito no festival. Não sei se ele já conhecia o Vitor Araújo, um jovem artista do Recife que nesse espaço de um ano cresceu e trouxe para um mundo pop a música clássica e vice-versa.



E é Villa-Lovos tocado com vigor de um rock, Tom Zé desconstruído em camadas tensas das notas do piano, as cordas dentro do piano atacadas pelas mãos, Luiz Gonzaga entre o clássico e o pós-moderno, música do filme Amelie Poulain (ou Púlã, como o sotaque pernambucano de Vitor faz soar), que você nem se dá conta que esse tipo de apresentação, de um pianista erudito, um dia foi identificada com sisudez e seriedade.



E ele quebra também a expectativa de um show somente instrumental. Bota o microfone perto do piano e conta de uma música de Chico Buarque que tocou e achou um negócio genial. E começa a tocar e cantar trechos de "Samba e Amor", e a acelerar a música e dizer que Chico, branquinho, vai ficando preto, o olho verde vai escurecendo até ficar cego e de repente ele está tocando "Hit The Road, Jack", de Ray Charles. A galera, é claro, delira com essa música-aula. E Vitor não faz só isso.



Entre uma música e outra se levanta e fala com a platéia, usa de frases espirituosas e histórias divertidas para ambientar melhor a música. A parte quando Vitor fala é tão interessante e tão parte do show quanto na hora que ele toca.



Quando fala sobre "Paulistana Nº1", de Cláudio Santoro. Ele se refere a tato, cheiros, cores e arrepios ao explicar a música. Sinestesia. Música para fechar os olhos e sentir a carga de dramaticidade que ela vai preenchendo o salão emudecido com os olhos grudados nos movimentos que Vitor faz, balançando a cabeça como se fosse Thom Yorke, vocalista do Radiohead.



E é do grupo inglês um dos momentos realmente arrepiantes do show. Antes, ele conta sobre o espanto de um compositor europeu, com quem conversava sobre Beethoven, ser indagado sobre esse tipo de música e a intenção de Vitor de mostrar a beleza de "Paranoid Android", colocando movimentos e influências diversas de música clássica, um Debussy em uma parte, nocturnos de Chopin em outra, Mozart em mais um lugar, música barroca... Tudo isso sendo mostrado antes de tocar a versão completa que ele criou.



Eu já vi Vitor Araújo tocar algumas vezes "Paranoid Android". Nunca do mesmo jeito. O legal de Vitor é que não importa quantas vezes você veja ele tocar, ele sempre busca novas soluções, ensaiadas ou improvisadas. Ele arrisca, não se importando tanto em acertar ou errar já que a beleza está no tentar. No final do show o resultado é óbvio: público aplaudindo de pé uma apresentação memorável.



No sábado a Recife de Vitor Araújo continua sendo muito bem representada por Comadre Fulozinha e Junio Barreto.

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