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quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Resenha, fotos, vídeos: Ibeyi no Circo Voador (15/10/2016)





Ao final do último sábado no Circo Voador é provável que tenham caído por terra várias certezas que muitos de nós ainda costumam ter em nossas cabecinhas. Uma delas é a de que alguém que faça uma música com originalidade, bastante qualidade, cuidados e caprichos em sonoridade e produção possa ter alguma chance de aceitação popular, a ponto de lotar a lona da Lapa, sem que nossos meios de comunicação tenham a mínima participação nesse sucesso. A não ser que La Cumbuca não tenha visto algo que saiu em jornal ou TV (o que é bem possível).







Não é que já não tenhamos visto isso antes, com N artistas, em especial com brasileiros que conquistam sua base de fãs à margem das divulgações massificadas, e do exterior, com seus nichos indie, reggae, metal, música coreana, etc, volta e meia nos surpreendendo.







Mas para ser bem divulgado hoje em dia não há nada melhor do que uma artista como a Beyoncé te dar uma força. Poucos segundos de uma música sua para dezenas de milhões de seguidores do Instagram da Beyoncé podem te catapultar do dia para noite. Multiplica isso por milhares de vezes quando você participa do filme que a multimilionária cantora lança para divulgar seu mais novo álbum, Lemonade.







Pois foi tudo isso que aconteceu com as gêmeas francesas de ascendência cubana que respondem pelo Ibeyi. Mas elas não vieram de lugar nenhum. O pai delas era o percussionista Miguel "Angá" Díaz, que tocou com o Buena Vista Social Club. A mãe, Maya Dagnino, é cantora e atualmente empresária delas. Lisa-Kaindé Diaz e Naomi Diaz tiveram a vida envolvida com música desde sempre, apesar da precoce morte do pai aos 46 anos, há pouco mais de uma década atrás.







É a partir daí que, ainda com 11 anos, Naomi passa a tocar o instrumento de percussão cajón. A função rítmica da dupla é dela, tocando também tambores e instrumentos eletrônicos de percussão, em cima das bases que acompanham as músicas, enquanto Lisa-Kaindé se encarrega da parte melódica, no piano, e costuma fazer a voz principal.







Mas nada disso é regra na apresentação. Já no início a dupla, após o ritual de acender duas velas no palco, se apresenta a capella para um Circo lotado e explodindo em gritos. A música é "Eleggua", que abre o disco de estreia ano passado que impressionou tanto a Beyoncé quanto esta Cumbuca. É a canção que abre os caminhos da apresentação, assim como faz a divindade Yorubá de mesmo nome.







A religião Yorubá, a Santería em sua versão cubana, é uma das principais influências e bases sonoras para as irmãs. Isso também ajuda a explicar o interesse particular pelo grupo no Brasil, onde a música afrorreligiosa recebe desde sempre muita admiração. Ultimamente tem feito sucesso a fusão desse tipo de música com outros ritmos, como vemos acontecer com o Metá Metá.







Já a fusão que Ibeyi faz é da música afrorreligiosa com grupos e artistas como The XX, James Blake, Esperanza Spalding e Erykah Badu, Sade, Prince, até Sigur Rós e Radiohead em certas melodias intrincadas. Jazz, hip-hop, soul e batidas graves com cânticos para santos, espíritos e para os familiares que se foram, como o pai e a irmã das gêmeas.







Ao vivo, o excesso de idolatria poderia atrapalhar as sutilezas que existem na (falsa) aparência de minimalismo instrumental com piano+percussão+bases e coros pré-gravados. E a gritaria realmente às vezes suplantava algumas notas. Mas o show é pensado como show mesmo, música+performance e é nisso que Ibeyi ganhou um público que já estava pronto para ser ganho.







Os gritos eram estimulados. As gêmeas lembraram algumas vezes que aquele era o último show da turnê e mostravam sempre a emoção que sentiam. O figurino, elas de branco com diversas contas e guias no pescoço e nas mãos, o palco com projeções artísticas, tudo remetia às misturas musicais que apresentavam. E elas dançam, pedem pro público cantar, pedem palmas, todos o roteiro muito bem ensaiado e, consequentemente, tudo saindo de forma muito natural, privilegiando as partes mais pegajosas das canções da dupla.







Ensaios e profissionalismos à parte, a emoção parece bem genuína, e termina com uma versão mais leve da música mais forte da Ibeyi, "River", que em sua versão "completa" já havia recebido a reação mais estrondosa da noite. Beyoncé, interesse pelas religiões africanas, curiosidade sobre o visual das gêmeas. Tudo muito legal, mas nada disso ia trazer tanta gente se as músicas não fossem boas pra cacete. Hora de apagar as velas e encerrar o ritual.







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A noite da Ibeyi foi dividia com Jaloo, artista eletrônico-pop do Pará. De forma muito acertada ele fez o encerramento da jornada. Diferente do que alguém poderia pensar, o público não debandou após a apresentação das gêmeas franco-cubanas e se manteve até boa parte do fim.







Não só o público como as próprias moças do Ibeyi ficaram por lá e invadiram o palco durante uma das músicas mais animadas e, vamos dizer, "olodumizadas" do repertório do Jaloo.







Comentamos sobre a arrebatadora apresentação do Jaloo com o Strobo na Fundiação Progresso, dentro do festival Se Rasgum. A diferença nesse show do Jaloo é notada pela falta de interação mais orgânica nos instrumentos. É tudo mais sintético, auxiliado por mais dois músicos apertando e batucando traquitanas eletrônicas.







O que se manteve foi a empolgação e o calor da apresentação, com direito a duas dançarinas que replicam o visual andrógino-capoeira (?) de Jaloo. Em comum com a Ibeyi é que existem boas canções embaixo dos beats e coreografias, embora as gêmeas estejam alguns níveis acima. Mas quem ficou até o final provavelmente não se arrependeu.






Seis vídeos da dupla Ibeyi, clicando aqui ou no tocador abaixo:





Músicas gravadas:


- "Eleggua"

- "Behind The Curtain"

- "Oddudua"

- "River"

- "Oya"

- "Weatherman"



E uma música do Jaloo, "Chuva":






Essas fotos e outras do show podem ser encontradas aqui e aqui.

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