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quarta-feira, 25 de maio de 2016

Caetano Veloso, BNegão, Abayomy, Fanfarra Black Clube, Orquestra Voadora: sexta cheia de vida contra Temer no Rio (20/05/2016)




O Brasil passa por um momento que muitos de nós pensávamos estar para trás em nosso país. A fragilidade de nossa democracia foi exposta por alguns políticos que, por temer (ops) serem presos na operação jurídico-policial denominada Lava-Jato, resolveram se aproveitar dos altos (e justificáveis) índices de impopularidade da presidenta Dilma Rousseff para destituí-la do cargo e, na esteira disso, implementar uma série de retrocessos que ameaçam as poucas, porém razoáveis conquistas sociais implementadas nas últimas três décadas.




Entre vários ministérios extinguidos, quase todos aqueles voltados à defesa de direitos sociais e de cidadania, o fim da pasta da Cultura foi o que gerou reações mais visíveis, com ocupações em diversos órgãos culturais vinculados ao ex-ministério, em especial nas representações da Funarte em muitos estados. No Rio de Janeiro, onde está a sede da Funarte, acontece um dos maiores movimentos de ocupação, com atividades culturais, manifestações e protestos acontecendo diariamente desde o começo da semana passada.









Ao mesmo tempo, outro grave ato aconteceu na Empresa Brasileira de Comunicação, a EBC, com a destituição de seu diretor-presidente por ato arbitrário do presidente interino. Uma manifestação na última sexta foi marcada, saindo da Avenida Gomes Freire (onde funciona a EBC) em direção ao Ocupa Minc no palácio Gustavo Capanema, sede da Funarte.









Surpreendentemente, considerando que se tratava da defesa de uma rede de TV Pública (a TV Brasil) com baixos índices de audiência, um bom número de manifestantes atravessou a Avenida Chile e Almirante Barroso ao som de músicos de fanfarras e blocos cariocas, muitos deles que tocam com a Orquestra Voadora, segurando cartazes contra Temer e relacionando a rede globo com o golpe. Pode ter sido uma surpresa a quantidade de pessoas, mas não era necessário ver a emissora para defender a legalidade no trato com a comunicação pública e, com uma demissão que não encontra respaldo na lei que criou a empresa de comunicação, essa defesa é mais do que necessária.




No Gustavo Capanema, que já estava bem cheio, com a chegada da manifestação deixou o espaço dos pilotis totalmente lotado. Após uma série de artistas como Otto, Arnaldo Antunes, Leoni, Frejat, Lenine e Digitaldubs, entre outros, mandarem seu recado em defesa do ministério da cultura e contra o interino Temer durante a semana (já mostramos aqui as orquestras sinfônicas contra o golpe), na sexta-feira compareceram à ocupação nomes de peso da música brasileira, Erasmo Carlos e Caetano Veloso, além de Seu Jorge, Teresa Cristina e Marcelo Jeneci e políticos como Marcelo Freixo e Jean Wyllys.









Mas a maioria parecia estar ali para Caetano Veloso. Curiosamente, ele pouco falou e, ao que consta, em nenhum momento se manifestou de forma contrária ao presidente interino. Por notícias e comentários, o que vemos é que a empresária de Caetano e de vários outros artistas tinha interesse somente na volta do Ministério da Cultura, o que acabou acontecendo esta semana.









De qualquer forma, na sexta-feira Caetano, com o violão e de cocar na cabeça, mostrou suas músicas e foi veículo para os manifestantes gritarem "odeio você, Temer" durante "Odeio" e recriar o refrão de "Luz de Tieta" da forma como costuma ser cantado pelo Bloco das Mulheres Rodadas: "eta eta eta, o Eduardo Cunha quer controlar minha buceta". Nessa até Caetano cantou, mesmo que fora do microfone. Contra ou a favor, a presença de Caetano proporcionou momentos próximos da catarse. Mas é natural que se espere uma palavra mais contundente de um nome importante da nossa cultura contra o que está acontecendo.









Mais tarde o Circo Voador foi palco de artistas que não costumam ter e em especial nessa noite não tiveram medo de botar a boca no trombone. Bom, trombone literalmente, no caso de Marco Serragrande que fez jornada dupla tocando com a Abayomy Afrobeat Orquestra e BNegão e Seletores de Frequência, assim como também fez o percussionista Alexandre Garnizé.









Mas vamos começar falando da Abayomy. O agrupamento, que na sexta vinha com treze músicos e dois dançarinos, não tinha como deixar de ser combativo, a julgar que o grupo foi criado em 2009 como oportunidade de celebrar o afrobeat de Fela Kuti através do evento que acontece no mundo todo, o Fela Day.









E talvez pelos acontecimentos no país, talvez pelo repertório baseado no segundo disco, Abra Sua Cabeça, lançado este ano, ou as duas coisas combinadas, a Abayomy fez sua apresentação mais possante. Mais de uma dúzia de músicos dando o máximo em seus instrumentos, em músicas que não se prendem sempre ao afrobeat felakutiano, mas o deslocamento nunca fica distante do "eixo Fela".









Se São Paulo tem o Bixiga 70, a Abayomy poderia ser o Bixiga 70.000. Os dois dançarinos, uma mulher e um homem, fazem com muita destreza o que parte do público, de um jeito particular, tenta replicar. Além da entrada eventual dos dançarinos, são várias as vozes que tomam a frente do palco entre os músicos, alguns deles acostumados com isso em seus próprios trabalhos solo em estilos diferentes do afrobeat.









Artistas como os guitarristas Gustavo Benjão e Zé Vito, o trompetista Leandro Joaquim e o multi-instrumentista Fábio Lima não precisam de muito esforço para defender músicas como "Mundo Sem Memória", "Oya! Oya!", "com Quem" e "Vou Para Onde Vou", ainda mais com a orquestra afiada do jeito que estava. Do disco anterior se destacaram "No Shit" e a mais conhecida, "Malunguinho".










Mas o que chamou a atenção é que antes, depois, no intervalo das músicas e durante as músicas também, todo momento era usado para denunciar e protestar contra o governo interino. As próprias letras refletiam isso, mesmo que elas tenham sido gravadas em 2014 e o show tenha sido marcado antes do impeachment se consumar. Os músicos até mesmo seguraram cartazes de protesto entre uma música e outra.









Entre a Abayomy e BNegão parte do público permaneceu para ouvir a Fanfarra Black Clube fazendo seu espetáculo fora do palco, com versões fanfarroneiras de músicas conhecidas onde corre o groove negro, e de autoria própria.










Há não muito tempo atrás a impressão no Rio de Janeiro é que a política e os problemas do Brasil não costumavam ter muito espaço na cena musical local, e é um alívio ver que isso está mudando, ainda mais diante da atual situação. E BNegão era uma das exceções desde sempre.









Nos dias de hoje, mais do que nunca, se torna uma voz necessária e requisitada. Mais do que falar sobre os problemas do país e de seu sangue "metade esquerda / metade anarquista", BNegão chamou a atenção para as ocupações estudantis, em particular dos estudantes em Goiás, pois se a situação aqui é difícil, imagina como é muito mais perigosa a luta por lá.









Musicalmente falando, os Seletores de Frequência agem cada vez mais como um canal por qual passa a maior quantidade de estilos musicais possível. O mais incrível é que temos sempre no público gente disposta a dançar, seja samba de gafieira, roda de côco ou hardcore, além de funk, dub, rock, entre outros ritmos.









A presença de Garnizé e Sandro Lustosa na percussão dá a encorpada ideal e necessária na parte rítmica da banda e em especial nas do disco novo, Transmutação, bem melhores ao vivo, com destaque sempre para "Giratória (a sua direção)". Mesmo com o show acabando muito tarde (ponto negativo da noite), ainda tínhamos muitos sobreviventes para conhecer alguns novos versos atualizados da "Dança do Patinho". Em época de patos e pactos, cada vez mais atual e necessário.










Tiramos várias fotos na sexta-feira, que podem ser vistas a partir daqui.

Já dois vídeos da Abayomy estão aqui ou aí embaixo:





Músicas gravadas:

- "Mundo Sem Memória"

- "Vou Pra Onde Vou"




Enquanto foram três os vídeos de BNegão e Seletores, aqui ou aí embaixo:




- "Mundo Tela"

- "Bass do Tambor"

- "Giratória ( Sua Direção )"

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