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terça-feira, 30 de julho de 2013

Falando sobre protestos: as primeiras bombas no Leblon na manifestação na porta de Sérgio Cabral (04/07/2013)



As multidões dos protestos de junho foram minguando por motivos tão diversos quanto aqueles que levaram as pessoas para as ruas. Mas no Rio, com ou sem multidões, ainda havia muito a ser feito. Praticamente todas as manifestações na cidade terminaram em ataque da polícia contra aqueles que protestavam, conforme já registrei aqui na Copa das Confederações (dia 16 e na final no dia 30) e na ALERJ, onde primeiro a polícia se omitiu, para depois atacar com tudo pessoas que nada tinham a ver com o quebra-quebra que tinha acontecido lá.




A truculência dos ataques da polícia causaram medo em boa parte da população, um dos vários fatores que possivelmente levou muita gente a preferir ficar em casa mesmo sem respostas efetivas do governador Sérgio Cabral sobre os gastos e a privatização do Maracanã, sobre sua relação com a construtora Delta e a atuação do escritório de advocacia de sua esposa com clientes que exploram serviços no Estado, e sobre a violência policial (na semanas seguintes teríamos novas denúncias contra o governador onde o silêncio em geral permanece).




Ao mesmo tempo, isso tudo (e a covardia que a tropa de Choque fez no dia 20 de junho na Av. Presidente Vargas, Lapa, IFCS...) gerou coragem em um grupo de pessoas que decidiu no dia seguinte acampar em frente à rua onde reside o governador, no cruzamento da Rua Aristides Espínola com Avenida Delfim Moreira, quarteirão nobilíssimo no Leblon. Essas pessoas ficaram por lá até o começo de julho, quando foram "despejadas" na madrugada de segunda para terça.







O resultado do despejo foi uma nova manifestação, que aconteceu no dia 04 de julho. Eram centenas de pessoas, a maioria jovens, mascarados em minoria (ainda não haviam sido decretados como Inimigos Públicos, como viriam a ser em questão de dias), que gritavam palavras de ordem contra o governador, e também contra o prefeito Eduardo Paes e o empresário Eike Batista.









À frente dos jovens, um exército de policiais bloqueando por completo a rua onde mora o governador. Isso não intimidou as pessoas que ficaram horas por lá. Ao contrário, a coisa foi esquentando. Literalmente, com um cartaz com o rosto do governador incendiado.







As horas passavam e a quantidade de pessoas já tinha diminuído um pouco, mas ainda era muito mais gente que qualquer governante gostaria de ter em sua rua às onze da noite. Apesar disso e de uma ou outra provocação, dava para perceber que o ânimo da manifestação não era de confronto com a polícia.







Eu estava um pouco mais afastado e conversando com outras pessoas, mas de onde estava não vi ninguém atirando pedras ou fazendo qualquer coisa quando a polícia resolveu atacar. O que se podia perceber eram explosões e rastros de fumaça de três bombas riscando a escuridão que só era interrompida pela areia da praia. Logo outras bombas fariam a mesma trajetória, enquanto as pessoas começaram a fugir num primeiro momento. De repente a escuridão deixou de ser somente do céu e todo quarteirão ficou às escuras. Terror.




Aos gritos de "não corre!" para evitar algum acidente nesses momentos de pânico, o movimento desacelera mas não deixa de ser de dispersão, como parecia ser a intenção da Polícia Militar. Mesmo assim, alguns policiais, mesmo sem o menor vislumbre de poderem se sentir ameaçados, jogavam as caríssimas bombas de gás lacrimogêneo pela orla de um dos bairros com imóveis mais caros do planeta.







Para tentar retardar a perseguição que a tropa de choque resolveu fazer contra parte dos manifestantes, alguns jogaram lixo e resolveram atear fogo em uma espécie de contâiner de papelão que abrigava caixas com... copos d'água. Note-se que, pelo menos aparentemente, nenhum dos muitos carros estacionados por ali ou as portarias dos prédios no caminho sofreram qualquer dano. E acrescente-se que, entre fogo, lixo e policiais recebendo ordens de um sujeito sem farda (provavelmente aquilo que se inseriu em nosso vocabulário recentemente, um P2), eu estava ao lado do radialista Maurício "roNca roNca" Valladares e do jornalista Geneton Moraes Neto.







Quase tão surreal quanto ver momentos antes um sujeito disposto a uma corrida noturna e com fones de ouvido se dirigindo à Avenida Delfim Moreira alheio ao que acontecia, até ser alertado, parar de olhos arregalados, e dar meia-volta no mesmo ritmo que estava antes.







Pequena parte dos manifestantes que não correu pela orla voltou para a casa do governador, alguns criticando duramente o trabalho policial e gerando discussões ásperas com a polícia, enquanto integrantes do choque mascarados passavam de moto e chegava até ali o caminhão-tanque com jato d'água para dispersar multidões. Naquele momento havia uma multidão de aproximadamente 20 pessoas...









Outra parte fincou barracas em frente à tradicional Pizzaria Guanabara, na Ataulfo de Paiva. Eu ainda estava pelo bairro às 3 da manhã e o grupo permanecia ali, mesmo com carros da PM passando de vez em quando e tentando dissuadí-los do acampamento no cruzamento.







Os acontecimentos sui generis dessa noite de insurgência no Leblon (que teria um repeteco mais hardcore duas semanas depois) trazem muito mais histórias do que as que contei aqui e muito para se pensar sobre os destinos do Rio de Janeiro. Mas não se enganem: este era só mais um capítulo da trama principal, sobre um governante que, diante da opção do diálogo e da transparência optou por jogar com o medo, conspiração e a desqualificação.

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