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terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Dois homens morreram onde eu estava e eu filmei a morte de um deles



Talvez o título acima seja um tanto quanto apelativo. Muito embora não esteja tão longe da verdade.



Longe estava eu, quando estava filmando do meu jeito furreca de sempre, os desdobramentos do ataque da polícia durante a manifestação que aconteceu no dia 06 de fevereiro de 2014.



De repente, enquanto acompanhava o diálogo de uma manifestante que é cadeirante com um policial da tropa de choque, um clarão ao fundo assusta a todos. Fogos, luzes estreladas pipocam na rua. Fim de tarde no Rio de Janeiro, uma noite que custa a chegar neste verão de dias quase intermináveis. Pessoas correm na direção de onde o que parecia ser um rojão havia estourado, mais uma bomba da polícia é jogada, mais correria.



Na hora eu nem percebi, mas no meio daquele clarão havia um homem. Era o cinegrafista Santiago Andrade, que veio a falecer no dia 10, quatro dias depois, quando foi decretada a morte cerebral.







Mesmo de muito longe, é muito triste saber que eu filmei uma explosão que decretou a morte de um homem, dias depois.



Naquele momento Santiago estava próximo ao Palácio Duque de Caxias. Eu estava próximo à entrada para a estação de trens. Um pouco mais longe, na Presidente Vargas estava um ambulante, um senhor já de certa idade, que foi identificado no dia seguinte por várias páginas no Facebook pelo nome de Tasnan Accioly.



Ele foi atropelado por um ônibus. Existe um conflito de versões. Se o ônibus correu por conta de bombas da polícia, se o ambulante saltou do ônibus assustado com a confusão. Enfim. Morreu um homem (cenas fortes, não recomendo assistir).



A notícia dessa morte, diferente da morte do cinegrafista, ficou circunscrita por vários dias às páginas no facebook que noticiam e apoiam manifestações. Muita gente até agora não sabe que foram duas as mortes na manifestação.



Mas vamos voltar um pouco no tempo, no momento em que cheguei à manifestação.



Cheguei na Central do Brasil depois das sete da noite. A região costuma estar cheia de trabalhadores para pegar os péssimos trens da Supervia para voltar para casa. Naquela noite havia a adição de mais algumas milhares de manifestantes protestando contra o absurdo e injustificável aumento da passagem de ônibus para três reais no município.



O bloco que toca segurando o estandarte "Nada Deve Parecer Impossível de Mudar" fazia o seu batuque e não tive muito tempo de apreciar até que começassem a voar as bombas de gás lacrimogêneo que caíam aos montes entre as árvores, no meio dos manifestantes e da população.







Muitos corriam e o bloco logo parou de tocar. Ao mesmo tempo um outro agrupamento batucava um pouco mais atrás, com palavras de ordem contra Sérgio Cabral e Eduardo Paes.







Breves segundos de "paz", se é que possível chamar assim se considerarmos a tensão sólida que estava presente no local, eram interrompidos sempre que algum grupo de policiais se sentia acuado e resolvia jogar alguma bomba de efeito moral ou de gás.



As táticas de dispersão que a polícia usa em uma manifestação já são normalmente nocivas e pouco eficazes em separar quem está lá com intenções lesivas daqueles que estão lá para se manifestar de forma legítima. Não que seja fácil, mas não há sequer intenção disso acontecer. O melhor para a polícia é colocar todo mundo na mesma cumbuca e decretar o fim da manifestação.



Mas o pior é jogar bombas e lançar gás no ar no meio de um ambiente movimentado como é a Central do Brasil. Pode-se achar que alguns dos manifestantes também estejam lá causando tumulto e desagradando a população que só quer ir para a casa.







O que não dá é para desconsiderar o papel da polícia como elemento causador do tumulto. Muito menos desconsiderar que, se o prefeito do Rio de Janeiro e o governador do estado quisessem dialogar e ouvissem as manifestações, muita munição seria economizada, muito menos sangue seria derramado e, agora, pelo menos duas mortes poderiam ser evitadas.



Não é uma questão de contemporizar com os responsáveis diretos pelas duas mortes trágicas. Mas um governante que se faz de surdo e passeia de helicóptero pago com nosso dinheiro para sua casa de praia todo fim de semana, enquanto outro aumenta uma passagem de ônibus em péssimas condições a despeito de técnicos do Tribunal de Contas do Município recomendarem que a tarifa seja reduzida, não possuem um mínimo de sensibilidade que se leve ao entendimento.



Não é possível eximir de responsabilidade quem não se importa com a iminência do confronto diante de uma situação claramente injusta como é a tarifa de ônibus no Rio de Janeiro.



Voltando ao que acontecia nas ruas. Passei algum tempo ajudando Tifany Fiks, a manifestante que, mesmo de cadeira de rodas, está sempre que possível em manifestações. Ela já havia sido atingida pelo gás que a polícia jogou e não estava se sentindo bem. A estação de metrô da Central estava fechada e os seguranças da empresa defendida juridicamente pela mulher do governador se negavam a abrir a entrada destinada a deficientes físicos. Depois de um tempo e de muita conversa com seguranças e policiais, uma outra entrada foi aberta e ela conseguiu voltar para casa.



À essa altura já corriam as notícias sobre o cinegrafista. Ouvi um outro cinegrafista, da mídia independente, relatando o que ele viu acontecer a cinco metros dele. O sangue, a orelha despedaçada. Ele não queria mais saber de filmar naquele dia.



A manifestação já estava em período de dispersão e o procedimento policial foi o mesmo nesses momentos. Era hora de deter aleatoriamente qualquer um que parecesse manifestante. Como "troco", pegavam também algumas pessoas com a pele negra, mesmo que claramente sem fazer parte do protesto. Nenhuma novidade.








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Dia 10 de fevereiro, nova manifestação marcada. No mesmo dia, horas antes, foi decretada a morte de Santiago. Encontrei a manifestação na Avenida Rio Branco. Um cordão de policiais altamente equipados cercava todo o perímetro da manifestação. A surpresa foi a quantidade de pessoas nas ruas (além da polícia).








Apesar de toda a exploração com uma das duas trágicas mortes, não foi o suficiente para desmobilizar um bom número de pessoas. Que da Rio Branco pegaram a Almirante Barroso, de lá passaram pela Alerj na Presidente Antônio Carlos e ficaram um bom tempo em frente à sede da Fetranspor na Rua da Assembleia. Depois de volta à Rio Branco, Cinelândia, câmara de vereadores.







O dia 10 foi total e completamente pacífico por parte dos manifestantes que lá estavam. Não que não houvesse gente ali disposta a combater a polícia, a jogar pedra a esmo, a explodir coisas, a quebrar bancos. É provável que tivesse, mas nada disso aconteceu. A rua é heterogênea, a manifestação é heterogênea. E, mesmo pacífica por parte dos manifestantes, mesmo assim, a polícia arrumou motivos para no final, quando tem menos gente, prender de forma aleatória quem ainda não tinha ido embora. E a ser violenta. A polícia sabe que não terá editoriais para ela.



A rua é plural e é necessário conviver e dialogar com quem está na rua, porque o monstro desmobilizador quer exatamente que você desconsidere a diversidade do pensamento, que esvazie sua capacidade de se mobilizar, de compreensão de experimentar as dificuldades que é uma ausência de direcionamento claro diante de um sentimento de ódio contra um estado que não quer ouvir as reivindicações... Não é fácil. Mas enquanto tivermos governos agindo como agem, continua sendo muito necessário. Outras proposições, desde que estejam além de "análises de facebook" e possam ser (e de preferência que sejam) postas em prática, também são bem vindas. Não podemos mais ficar longe.

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