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sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

200 Discos Nacionais dos Anos 00 - 010 a 006

010 - Djangos - EP (2004)


Historinha: há muitos anos atrás, quando eu usava o Soulseek para baixar músicas, eu deixava o programa fazendo uma busca de bandas que gostava, mas não tinha novidades ou acesso a músicas novas ou antigas, em especial bandas uderground do Rio de Janeiro. Então colocava lá Poindexter, Ack, Funk Fuckers... e Djangos. Em certo dia, abriu-se uma pastinha com uma série de músicas do Djangos. Sem demora coloquei todas para baixar.


O soulseek permite que os usuários possam conversar através do programa, então de repente o receptor daquelas músicas abre uma janela para conversar. Eu já temia que ele fosse me bloquear e não conseguir baixar as músicas, quando vejo que ele está me perguntando se eu conhecia o Djangos, se gostava das músicas. Durante a conversa descubro que estou falando com Marco Homobono, guitarrista, vocalista e compositor dos Djangos, um ídolo que hoje considero um amigo. As músicas que eu estava baixando faziam parte de uma demo que eles estavam vendendo eventualmente em shows, além de outras que, acho, não faziam parte da demo.


Se no primeiro disco, Raiva Contra Oba Oba, Djangos era considerada uma banda de ska que se apropriava de outros ritmos, e em 2001, quando assisti a um show deles no Humaitá Pra Peixe dava pra perceber que havia mais rock'n'roll envolvido, nas músicas dessa demo o que se pode perceber é que, entre as muitas referências que eles possuem, uma se sobressai, que é o Asian Dub Foundation.


A mistura de dub, rock e batidas quebradas para dançar se faz sentir em "Mantra", que possui elementos semi-indianos e mensagens positivas; "Jumping In The Slave Quarter", quase um drum'n'bass punk com ecos jamaicanos de guitarra; e "Onda e Concreto", eletrônica e pesada, com linha de baixo de reggae em cima. A essas se somam "Operação São Jorge", de riff marcante de introdução e "O Alvo", uma espécie de rock funkeado, onde mais uma vez as linhas graves de baixo de Carlyle Diniz se sobressaem.

Além dos graves jamaicanos e de todas as camadas de instrumentos que os Djangos vão acrescentando, há também a forma original que Marco costuma escrever sobre as coisas, comparando a trajetória de uma bala perdida com nossos anseios, sobre a prisão em que o medo nos põe, sobre quem enfrenta o medo, sobre dias melhores. Pela internet achei link para quatro dessas músicas: "Operação São Jorge", "Mantra", "Jumping In The Slave Quarter" e "Onda e Concreto".




009 - Siba e a Fuloresta - Toda Vez Que Eu Dou Um Passo O Mundo Sai Do Lugar (2007)


De todas as bandas surgidas em Recife nos anos 90, o Mestre Ambrósio era uma das que menos me interessava. Apesar de músicas legais como "Fuá Na Casa Do Cabral" e "Se Zé Limeira Sambasse Maracatu", a coisa toda parecia meio difusa, sem unidade. Quando a banda acabou, o vocalista e rabequeiro (rabeca é uma espécie de violino) Siba, em vez de tentar uma carreira morando em São Paulo ou no Rio de Janeiro, foi se embrenhar na zona da mata pernambucana.


Lá, Siba trabalhou com músicos da região, mas não foi impor e sim fazer parte dos festejos e da música da região. Não foi exatamente pesquisar os ritmos folclóricos; Siba foi viver e respirar um presente que não esquece nem rejeita a tradição, sem santificá-la. Aos poucos montou seu novo grupo, a Fuloresta. Lançou um disco, A Fuloresta do Samba, e caiu no mundo.


Toda Vez Que Eu Dou Um Um Passo O Mundo Sai Do Lugar foi feito após viagens de Siba e A Fuloresta por festivais na Europa. Sem perder nenhum traço da sonoridade dos maracatus-rurais, cirandas e frevos, dá pra sentir ali a influência que essas viagens devem ter tido, lembrando inclusive, bem de leve, sons distantes da zona da mata. A produção do disco é impecável. Praticamente todo feito de voz, percussão e sopros, mas as raras incursões de guitarras (Lúcio Maia e Fernando Catatau), violas e piano caem sempre no lugar certo.


Mas não se engane: por trás desse regionalismo há um disco pesado, que cabe em rádio sem parecer que você está participando de algum estudo antropológico. Não bastasse a produção, as letras de Siba falam de forma bem humorada desde impostos e taxas ("Será") a time de futebol rebaixado pra terceira divisão ("Meu Time"), naquelas métricas típicas da poesia repentista e de emboladas, bem talhadas, muito mais que mantendo uma tradição, criando a sua tradição que não deixa criar limo.




008 - De Leve - Manifesto 1/2 171 (2006)


Que o De Leve tinha algo de diferente de outros rappers ou músicos, já dava perceber desde a época do grupo-coletivo Quinto Andar. No primeiro solo, O Estilo Foda-se, ele apresentava em uma linguagem bastante direta, ofensivas e ofensas contra boa parte da classe artística brasileira, além de ironizar a si mesmo.


Já em Manifesto 1/2 171, De Leve dirige boa parte do deboche em cima de Marcelo D2. A partir do título, uma paródia à grife de roupas de D2 chamada Manifesto 33 1/3. Em "Rolé de Camelim" ele diz que "essa onda que tu tira é onda de mané / manifesto 1/2 171 de bota e boné" em clara referência à música "Qual É" e é explícito em "Caô Fudido" ao dizer que "esse negócio de rap ainda não me deixou rico igual D2 / mas se a mídia quiser um dia eu fico e depois / eu não faço mais rap, vivo de propaganda" e cai em cima da "procura da batida perfeita" e diz que está mesmo é "à procura da parada mal feita".


O que poderia ser uma tola briga entre rappers vira uma bom exercício de zoação, típica das batalhas de rimas que haviam no início do século na Lapa. Mas essa é a menor parte desse disco. Em vez de dar nome aos bois no mundo da música, dessa vez De Leve nomeia e parte pra dentro é da política, onde em uma conclamação de levar à fogueira os nobres parlamentares ("Pode Queimar"), são citados ACM Neto, Bispo Rodrigues e Waldemar da Cosa Neto. Já em "Isso Sim é Uma Piada" coloca na roda os "humoristas" Zé Dirceu, Marcos Valério e Roberto Jefferson. E acho que De Leve foi o primeiro artista a gravar um disco falando sobre mensalão.


Mas são nas observações (nem tão) genéricas, sem um alvo (nem tão) específico, que De Leve faz mais bonito. Em "Diploma" os versos são mortais: "Cê se formou advogado, mas não passou na OAB / relaxa, tem mais de cinco mil neguin que nem você / que estudaram mais de quatro anos, e hoje limpa o chão / ou tão em fila de loja pra ficar atrás do balcão" e "tira mó onda no choppinho da sexta / mas o que ninguem sabe é que cê trabalha no Extra / e o jornal é uma bosta / você tem assessoria nas costas".


"Feipa" é um gigantesco rol de ofensas que são costumeiras para quem quer se referir a seres desprovidos de beleza e é a mais divertida do disco. De Leve não tem a fama (justificada) do D2, nem a verve cheia de referências do Black Alien, mas em Manifesto 1/2 171 fez um trabalho incomparável nesta década.




007 - Nação Zumbi - Fome de Tudo (2007)


Depois de um disco frio e sem cor - Futura, na minha opinião o mais fraco da banda - , a Nação Zumbi explode em tonalidades fortes com Fome de Tudo, em um arco-íris onde o vermelho-sangue se sobressai. Aqui Jorge Du Peixe parece mais confortável com o papel de vocalista, menos dependente dos efeitos na voz.


Os tambores estão mais altos com a produção de Mario Caldato, e são o elemento de identificação mais constante. O que acaba contribuindo para os diferentes climas de cada música é a guitarra de Lúcio Maia. Lúcio já tem seu modus operandi na construção de riffs fortes, mas isso não o impede de tentar novos jeitos & efeitos. O mesmo vale para as batidas da parte percussiva da banda, que cria seus próprios ritmos que vinham sendo burilados nos trabalhos anteriores.


Fome de Tudo é um disco onde a fome é o tema, mas não pelo viés da miséria e tristeza da falta de recursos da pobreza nordestina. A conversa aqui é das vontades de quem está buscando. "De vez em quando o mundo é pouco / quase nada pro que vem a seguir", canta/declama Du Peixe em "Originais do Sonho". E o que vem a seguir é "No Olimpo", influência de Jorge Ben - via Los Sebosos Postizos, projeto da Nação que toca Ben - lisérgico, alcançando uma perfeição mitológica e criando água na boca de expectativas para o que a Nação tem a mostrar a partir daí.




006 - Romulo Fróes - No Chão Sem O Chão (2009)


Para fazer essa lista de 200 discos, alguns critérios, embora nem sempre seguidos, foram adotados. Um deles é o impacto que o disco teve com o passar dos anos. Porque é muito fácil você se empolgar com um lançamento, a emoção de ouvir aquelas músicas pela primeira vez. Mas às vezes essa vai ser a única vez que você vai ouvir o disco, porque não sente vontade de ouvi-lo novamente ou porque no fim das contas o tempo faz perceber que não era tudo aquilo que você imaginava no começo.


Por conta desse critério, avaliar discos lançados em 2009 complica um pouco. É provável que com o passar dos anos, se essa lista fosse refeita, discos como o da Céu ou do Cidadão Instigado que foram lançados este ano ficassem algumas posições à frente, ou outros que nem entraram na lista (O Lendário Chucrobillyman, Os The Darma Lóvers, por exemplo) ganhassem um espaço.


O que tudo isso tem a ver com No Chão, Sem O Chão, disco duplo de Romulo Fróes, lançado na internet no início de janeiro? Certos discos nos dão a certeza de estarmos diante de um clássico. Esse é um dos critérios determinantes para os 20 primeiros discos que estão aqui. Eu não estava pensando nisso enquanto ouvia "Do Ponto do Cão", a primeira música que abre a primeira sessão do disco, chamada Cala Boca Já Morreu. Mas quando entra "A Anti-Musa" e seus bolinhos de chuva, bom, talvez seja melhor você reler o que já falei sobre a música.


A partir daí, depois de conseguir parar de colocar "A Anti-Musa" no repeat, cada música que se seguia era como um gol marcado, do tipo "caramba, ele conseguiu de novo!". Influenciado por grupos e artistas atuais que assimilam e entortam o universo tropicalista de Transa de Caetano Veloso e de artistas do mesmo período como Jorge Mautner, Jards Macalé, Walter Franco, Luiz Melodia e Tom Zé.


As canções remetem a imagens surreais, buracos de grito e desertos vermelhos, fantasias de tapete levando anjos de asas em chamas em cima de solos lannygordinianos, samba, indie, mpb e rock'n'roll feito na companhia de um super trio com Curumin na bateria, Fábio Sá no baixo e Guilherme Held rasgando guitarras ao meio.


Romulo Fróes dá espaço para todos e mais uma dezena de convidados, além dos artistas plásticos Nuno Ramos e Clima que ajudam a criar as letras, e consegue com nada menos do que 33 músicas estabelecer em pleno 2009 um disco já clássico na música brasileira.

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