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quinta-feira, 6 de novembro de 2014

De 1987 a 2014, os extremos de Echo and The Bunnymen no Rio de Janeiro (01/11/2014)







O Rio de Janeiro, como muitas cidades, tem suas lendas e seus acontecimentos transformados em fatos irrevogáveis, vividos até mesmo por aqueles que não presenciaram o momento. Falávamos aqui na resenha do show do Mulheres Q Dizem Sim sobre shows históricos, sobre o Franz Ferdinand no Circo Voador, apontado por muitos como o melhor show que já passou por essas terras.



Mas quem já era vivo em 1987 ao ler algo assim vai dar uma boa risada irônica e afirmar categoricamente para nós, jovens ou não tão jovens tolinhos, que o melhor show que esta cidade já presenciou aconteceu no Canecão com um bando de ingleses que demoram a tirar seus casacos mesmo com o implacável calor carioca, mas rapidamente se entregaram à plateia (e às caipirinhas) em chamas, em uma simbiose e cumplicidade que é lembrada com carinho até hoje por quem esteve lá, por quem finge que esteve lá e também pela dupla que fundou e permanece tocando sob o nome de Echo and The Bunnymen.



Você pode ver gravação desse show aqui.



O vocalista Ian McCulloch e o guitarrista Will Sergeant estiveram outras vezes no Rio e no Brasil, mas a referência é sempre Canecão 1987. O paradigma a jamais ser alcançado. E claro que não seria alcançado na Fundição Progresso 2014. Mas não dava para imaginar também que seria o extremo oposto do que os ancestrais nos contam daquele dia glorioso.







A Fundição estava longe de estar cheia, o que pode ser explicado em boa parte pelo preço do ingresso. Mesmo assim, de forma quase pontual para padrões cariocas, Ian, Will e os outros atuais Bunnymen entraram no palco enquanto bisonhamente uma locução na casa avisava que o espetáculo ia começar, as saídas de emergência ficam nas laterais, etc, etc, e a banda lá, querendo começar, mas precisando esperar esse bizarro anúncio de sessão de cinema/decolagem de avião. Mal sabíamos que já era um prenúncio do desastre.



Primeira música, "Meteorites", que dá nome ao novo (e ótimo, diga-se) disco e... cadê o som do baixo? Esse problema iria até o fim da música e continuaria a ocorrer nas seguintes, mas o mais incrível é que uma das tentativas de solução foi plugar e desplugar o instrumento, causando barulhos indesejados no meio da performance que tinha mais jeito de ensaio.



Eventualmente o baixo teria seus problemas sonoros resolvidos, mas volta e meia outros sons apareciam e sumiam da guitarra, da bateria, de lugar nenhum... Enquanto isso, ao final de praticamente todas as músicas Ian McCulloch reclamava com a mesa de som, com o roadie, com o técnico, sobre o reverb que estaria ouvindo, sempre acompanhados das palavras fucking, shit, cunt e outras tantas do extenso vocabulário de palavrões que o vocalista possui.



Não dá para livrar totalmente a cara da banda em relação aos problemas, porque a impressão que dá é que sequer houve passagem de som antes do show. Se houve, não serviu de nada.



O show (e o som) só começou a entrar nos eixos e empolgar um pouco mais a partir do cover dos Doors, "People Are Strange". Mas empolgar aquele público era tarefa ingrata. Nem mesmo "Seven Seas", tocada na sequência, foi capaz de ter uma resposta à altura do seu tamanho na discografia da banda.



Claro que o final com "All That Jazz", "Bring On The Dancing Horses", "The Killing Moon" e "The Cutter" anima, ou deveria animar, qualquer sobrevivente dos anos 80. As novas "Holy Moses" e, em especial, "Constantinople", até tiveram uma resposta razoável. Mas não chegam a enlouquecer a apática audiência. A distância entre o que nos contam sobre o show no Canecão e o que estamos vendo ali parece ser maior do que 27 anos. Séculos, talvez.



Ian tentou de todo jeito: mandava a banda diminuir o som para o pessoal cantar junto, agradecia em português, mas pouco adiantava. A metáfora com cinema e vôo de avião vale ser repetida, pois já vi mais gente aplaudindo final de filme (mesmo sem o diretor ou qualquer pessoa responsável película presente, o que é muito estranho) e pouso de aeronave do que o final de algumas das músicas.



A mistura de público entre frequentadores quarentões de festa Ploc e jovens que pareciam saídos de algum evento de anime, mostrou que muita gente não era familiarizada com a prática de ir a um show de rock.



Isso ficou bem demonstrado quando a banda saiu do palco. Em vez de aplausos e pedidos de bis, silêncio. Pessoas olhando para o palco, esperando a volta protocolar para tocar "Lips Like Sugar" ("Nothing Lasts Forever" e "Ocean Rain" também estavam planejadas).



Alguns puxavam aplausos, mas não tinham muita receptividade dos outros em volta. Um roadie veio, jogou uma luz com uma lanterna no público e implorou - sim, implorou! - para que as pessoas batessem palmas e pedissem a volta da banda.



Eu já estive em shows que todo mundo começa a ir embora sem pedir bis que o artista poderia ter feito se alguém quisesse. Já estive em shows que começam a vaiar porque o artista, depois de já ter tocado tudo que ensaiou, não voltou para um terceiro bis.



Mas era a primeira vez que via um grupo de pessoas tão apático, sem ir embora, mas sem manifestar a menor vontade de estar ali. Acabaram sendo castigados os poucos que realmente exibiam emoção de assistir Echo and The Bunnymen, mas diante de tantos problemas com o som e de uma plateia que não pediu seu retorno, Ian McCulloch fez o mais sensato e ficou pelo camarim mesmo, provavelmente tomando uma caipirinha antes de cair na night do Rio de Janeiro. Sem tirar o casaco, é claro.



Tarde demais, quando os equipamentos e instrumentos já eram retirados e o DJ Edinho assumia o som da casa (e aproveitou para tocar "Lips Like Sugar"), o povo resolveu vaiar e arremessar água e cerveja no palco. Sem ser exatamente por culpa da banda, em vez de superar o show no Canecão, acabou acontecendo o extremo oposto. Vai ser difícil, mas caso Echo and The Bunnymen volte alguma vez ao Rio de Janeiro, que seja em um lugar melhor. E com um público mais animado, se for possível...



Gravei três músicas, que vocês podem ver aqui ou abaixo.





Músicas gravadas:

People Are Strange
Constantinople
Bring On The Dancing Horses

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